1.
INTRODUÇÃO
A temática ecológica tem se revelado como uma discussão fundamental da
atualidade, projetando-se como uma das principais questões a serem
tratadas nestes anos que antecedem o final do século.
É cada vez maior o espaço ocupado por esse assunto na mídia e nos meios de
comunicação. Há uma super exposição ao tema, o que leva por um lado à
possibilidade de criação de uma “consciência ecológica”, também pode levar
a uma saturação da opinião pública no que diz respeito a essa discussão. .
Com esta saturação tem levado, inclusive, a criação termos pitorescos como
eco-terroristas para aquele ecologista mais faccioso e eco-chato para
aqueles defensores extremistas do meio ambiente.
Uma das primeiras questões que se colocam é: uma vez que o homem
sempre se preocupou com seu “oikos” (casa), porque a “ecologia” que,
etimologicamente falando, é o estudo da casa, ocupa hoje
tamanho destaque?
Uma das possíveis respostas a essa questão pode ser encontrada, por
exemplo, no livro “São Paulo 1975: crescimento e pobreza” - Camargo (1976)
-, no instante em que é sugerida a seguinte hipótese: a forma atual de
organização da sociedade, com seus aspectos gritantes de desigualdade
social e crescimento econômico a qualquer custo, só seria colocada em
discussão ampla se de alguma maneira fossem ameaçados os interesses da
classe economicamente dominante. O que percebemos hoje é quase que uma
confirmação dessa hipótese, pelo menos em alguns aspectos. Assim,
problemas que aparentemente diziam respeito apenas às populações ditas de
baixa renda passaram a ocupar espaços maiores, chegando a afetar a
sociedade como um todo. “Deterioração da qualidade de vida” é uma questão
recorrente no discurso de todas as camadas sociais.
Seguindo um outro caminho para tentar entender o porque do destaque que
vem assumindo a ecologia, podemos constatar o fato de que a poluição em
níveis alarmantes, a degradação sócio-ambiental, acelerada extinção da
biodiversidade (antes mesmo de conhecemo-las),
as gigantescas e crescentes concentrações urbanas trazem em
si inquietações e dúvidas a respeito da possibilidade de sobrevivência da
espécie humana enquanto tal, além das outras formas de vida.
A ecologia deixa então de circunscrever apenas o meio ambiente e as
relações não humanas e passa a utilizar alguns de seus conceitos para
analisar as atividades humanas, as inter-relações entre os grupos humanos
e o seu meio específico.
A ecologia adquiriu, como resultado de um processo que se acelerou no
decorrer da década de 50, a característica de ser uma disciplina que tem
aumentado constantemente sua abrangência, extrapolando os limites das
Ciências Biológicas, estendendo-se e promovendo intercâmbios com as
Ciências Exatas e Ciências Humanas.
Têm surgido, inclusive dentro da própria Biologia, algumas novas
tendências, dentro das quais a mais significativa é a chamada “Nova
Biologia” . Contemporaneamente encontra-se vinculada à questão
ecológica o conceito de qualidade de vida, que é usado de várias maneiras.
O que nós procuramos fazer foi sistematizar as formas como tem sido
utilizado este conceito. Percebendo as ligações claras entre a dificuldade
em se quantificar a qualidade de vida e a dificuldade que existe no
tratamento dos indicadores sociais em geral. Este trabalho visa mapear
como o conceito de qualidade de vida vem se desdobrando, tendo por pano de
fundo a perspectiva da Sociologia Ambiental (suscitada pelo acirramento
das discussões sobre os problemas ecológicos) e pela proteção à
biodiversidade.
2.
UMA BREVE
HISTÓRIA DO CONCEITO DE QUALIDADE DE VIDA NO DECORRER DA HISTÓRIA MUNDIAL
Há uma quantidade enorme de trabalhos que citam ou utilizam o conceito de
qualidade de vida, alguns superficialmente, outros procurando um maior
Detalhamento na sua utilização. A seguir faremos uma exposição sobre
alguns desses conceitos, procurando enfatizar principalmente aqueles
textos que tratam mais detidamente do conceito procuramos acompanhar sua
evolução e delinear uma idéia do real significado do termo qualidade de
vida na atualidade.
Em 1973 surge a idéia de uma Sociologia Urbana teria nascido não de uma
preocupação fundamental de elaboração teórica, mas da necessidade de
enfrentar certos problemas “práticos” urgentes. Tais problemas
estariam ligados ao expressivo crescimento das grandes cidades que
acompanhou a industrialização e o desenvolvimento capitalista,
especialmente nos Estados Unidos, com fenômenos como a imigração em massa
de contingentes europeus em fins do séc. XIX e início do séc. XX.
Os
estudiosos dos anos 20 e 30 acreditavam a melhor forma de se estudar uma
cidade seria compreender a sua organização, não apenas enquanto unidade
geográfica e ecológica, mas também enquanto unidade econômica. Segundo
Park, a organização econômica cidade baseia-se na divisão do trabalho.
Sem
adentrar em muitos detalhes, devido às restrições inerentes ao tipo de
trabalho a que nos propusemos, vamos fazer uma breve consideração a
respeito de um dos aspectos nos quais se dividiam os trabalhos dos
pesquisadores daquela época, também chamados pesquisadores de Chicago
(devido a cidade de Chicago que foi escolhida para a realização dos
trabalhos): os estudos ecológicos, mais especificamente a Ecologia
Humana. Esta abordagem é importante porque, a partir desse momento, a
ecologia passou a se preocupar não apenas com as inter-relações entre os
animais e o meio, mas a analisar também as formas de organização do homem
no seu meio específico e as relações que ali se estabelecem.
Desta forma
a Ecologia Humana passou a ser definida como a ciência que estuda as
forças que atuam dentro dos limites de uma área qualquer de habitação
humana (que pode ser uma área urbana) forças estas que tendem a
ocasionar um agrupamento típico e ordenado da população e suas
instituições. A Ecologia Humana tem por objetivo isolar estes fatores e
descrever os agrupamentos típicos de pessoas e instituições produzidos
pela operação conjunta de tais forças.
McKenzie
desenvolve melhor essa definição colocando a Ecologia Humana como a
disciplina que estuda as relações espaciais e temporais de seres humanos,
como estas são influenciadas pelas forças seletivas, distribuidoras e
acomodativas do meio. O interesse fundamental dessa disciplina seria o
efeito da “posição” (palavra que descreve a relação de lugar entre uma
dada comunidade e outras comunidades, bem como a localização do indivíduo
ou instituição dentro da própria comunidade), tanto no tempo quanto no
espaço, sobre as instituições humanas e sobre comportamento humano.
Podemos
dizer que esta concepção de ecologia conserva o seu aspecto inicial, ou
seja, uma disciplina preocupada em estudar as “relações entre as espécies
animais e seu ambiente orgânico e inorgânico”. Ocorreu apenas uma
ampliação de campo, passando a incluir entre as “espécies” o homem, além
da colocação da cidade como componente ambiental - como um “produto da
natureza, e particularmente da natureza humana”.
A Escola de
Chicago sofreu influência marcante dos trabalhos de Georg Simmel. Este
pensador teve como uma de suas diretrizes a crítica à “filosofia do
dinheiro”, à valorização desmedida dos aspectos “materiais” da vida. Uma
outra característica do trabalho de Simmel foi a recorrência freqüente a
explicações e análises calcadas na psicologia de massa. Ele se propunha a
investigar o “significado íntimo” da vida moderna e os seus produtos, de
maneira a compreender como a metrópole dispõe entre os conteúdos
individual e supra-individual da vida, ou seja, responder à pergunta:
“como a personalidade se acomoda nos ajustamentos às forças externas?”.
René Dubos,
em obras do final da década de 1960 e início da década de 70, empregava
uma abordagem calcada principalmente sobre a crítica ao progresso e aos
desdobramentos do desenvolvimento tecnológico. Cabe aqui ressaltar que a
crítica não dizia respeito à tecnologia em si, uma vez que o autor
afirmava tanto a tecnologia quanto a ciência (em sentido mais amplo) como
criações humanas, não podendo ser responsabilizadas pela inépcia humana em
utilizar o conhecimento e o poder. Dentro deste contexto, o conceito de
qualidade de vida é usado como contraponto à materialidade. Uma das
críticas ao progresso é de que este considera apenas a “abundância das
coisas” quando está a designar mudanças no “padrão de vida”, sem fazer
referência à qualidade de vida.
Nessa fase
de sua obra Dubos tratou também do “desencantamento do mundo” ,
afirmando que a razão mais óbvia desse fenômeno é a compreensão de que a
prosperidade e o conforto não asseguram necessariamente a “saúde e a
felicidade”. Para esse autor alguns aspectos do progresso material
prejudicam a qualidade de vida.
Assim a
poluição, aumento dos estímulos sensoriais, deterioração dos serviços
públicos, perda da intimidade pessoal, aumento da arregimentação social
além de outros são apresentados como inquietações geradas pela má
aplicação da tecnologia, que inevitavelmente levam a uma diminuição na
qualidade de vida.
Dubos
(1972) apresenta a qualidade de vida humana como indissoluvelmente
entrelaçada às espécies e variedades de estímulos que o homem recebe da
Terra e da vida que esta abriga, pois a natureza humana é “plasmada
biológica e mentalmente pela natureza exterior” (p. 37). Para o autor uma
relação com a biosfera baseada apenas no seu uso para enriquecimento
econômico acarretará fatalmente não só a degradação mas também a
desvalorização da vida humana que, se não for corrigida, tornar-se-á
uma doença fatal das sociedades tecnológicas.
Criticando
a utilização da tecnologia pela civilização ocidental, Dubos afirma que
essa civilização até agora os carros, etc., evidencia-se hoje como fatores
que provocam um impacto cumulativo causando perturbações ecológicas em
escala universal. Tal situação, estaria levando a uma atitude de
reavaliação dos valores, apontando para a possibilidade de, em breve,
considerar-se a preservação da qualidade de vida como elemento importante
para a promoção do crescimento econômico tendo-se em vista a avaliação dos
méritos sociais do desenvolvimento tecnológico.
Podemos
afirmar, então, que nesse momento - ou seja final dos anos 60 início dos
70 – o conceito de qualidade de vida começou a se modificar.
Primeiramente, por se tratar da crítica à concepção de progresso material
desvinculado de um sentido mais profundo, ou seja, a qualidade de vida
serviu como contraponto. Isso significa que a qualidade de vida foi
usada para denominar aqueles fatores, ou componentes, de caráter
“imaterial”, associados por exemplo à “felicidade”, etc.
Durante a
década de 70 foram realizados esforços significativos no sentido de
utilizar os indicadores sociais na tentativa de “quantificar” a qualidade
de vida. Nesta linha trabalharam, por exemplo, Andrews e Withey, que em
1976, fizeram importantes considerações a respeito do conceito de
qualidade de vida. Para esses autores a percepção do bem-estar (“well-being”)
constitui um componente central para a experiência pessoal da qualidade de
vida.
A pesquisa
objetivou analisar as diferentes percepções do bem estar, ou seja,
investigar como essas percepções estavam organizadas na mente de diversos
grupos de norte-americanos adultos. Paralelamente, a pesquisa visou
encontrar caminhos eficientes de medir essas percepções, sugerindo meios
para que esses métodos de mensuração pudessem ser implementados para
produzir uma série de Indicadores Sociais, além de providenciar leituras
iniciais sobre esses indicadores, tais como algumas informações a respeito
da percepção dos níveis de bem estar. Para tanto foi realizado um “survey”,
no qual foram entrevistados 5.000 norte-americanos, divididos em quatro
grupos de amostragem.
Os autores
chamam atenção para o sentido da noção de qualidade de vida: o mais usual
refere-se ao meio ambiente e circunstâncias externas à vida individual
(poluição, qualidade das habitações, etc.), o que significava dizer que
a qualidade de vida poderia passar a ser considerada como uma experiência
individual.
No entanto,
neste ponto os autores esbarraram em uma questão fundamental: como medir a
qualidade de vida? Esta era a questão que a utilização de indicadores
deveria solucionar. Mas não seria uma tarefa fácil, pois como afirmaram os
próprios autores a idéia de medir a qualidade de vida pode incluir a
medição de praticamente tudo que interesse a alguém, em outras palavras
tem natureza objetiva e subjetiva.
Entretanto
houve uma alternativa: a consideração de três dimensões para compreender
os fenômenos que estão sendo indicados, quais sejam:
Em primeiro
lugar se consideraria a extensão da concordância das pessoas para a
definição de um dado fenômeno. Assim, mesmo concordando no que se refere a
uma definição de “casa”, surgem divergências na hora de se classificar um
barraco ou uma caverna como “casa”; estas divergências aumentam ao se
tentar definir uma “boa casa”.
A segunda
dimensão seria definida pelo grau de diferença que o mesmo estímulo
sensorial ou neural produz diferentemente em cada observador. Por exemplo,
o fenômeno da minha dor não é o mesmo para mim e para o meu dentista, a
percepção é totalmente diferente.
A terceira
dimensão seria a extensão pela qual, pessoas diferentes podem ter ações
similares frente a um fenômeno. Dessa forma, dados que estão sujeitos a
fácil acesso e manipulação, são comumente vistos como objetivos. Os
autores afirmaram, portanto, que um adequado monitoramento da qualidade de
vida deve requerer atenção não penas para os aspectos físicos e
tecnológicos da vida, mas também para como as condições de vida são
percebidas e avaliadas pelos indivíduos. Para os autores, um programa de
monitoramento da qualidade de vida em larga escala deverá incluir mais do
que apenas medidas de bem-estar, sendo que mesmo entre estas medidas de
bem-estar deverão estar inclusas as percepções dos indivíduos além de
vários dados não perceptíveis .
Foi
sugerido também sugeriram que um programa designado para avaliar o bem
estar poderia ser mais conveniente se considerasse tanto os indicadores
perceptíveis (“perceptual”) quanto os não- perceptíveis (“nonperceptual”)
como possuindo a mesma relevância.
Este é o
ponto sobre o qual gostaríamos de nos deter neste momento:
Um dos
setores que sofreu mais duramente as conseqüências do processo da
urbanização foi a saúde pública. Além dos problemas decorrentes da
concentração populacional que podem ser medidos pelos indicadores
objetivos (variação no número de leitos hospitalares e de médicos por
habitante, por exemplo), constatou-se uma transformação em um sentido mais
profundo. Assim, considerando- se a saúde como resultado de um processo
complexo saúde/doença, observou-se uma maior freqüência na incidência de
sintomas individuais do tipo psicossomáticos, gerados por uma vida
(urbana) sujeita a um desgaste estressante e ao desequilíbrio em sentido
amplo. Este fenômeno é estudado por vários autores - como Dubos(1965,
1968), Illich(1975b, 1977), Dupuy(1976, 1979, 1980), etc. - e pode vir a
se constituir como uma das fontes para a elaboração de indicadores
“subjetivos”, aprimorando assim a definição de qualidade de vida.
Com base do
descrito, podemos concluir que dentro de uma concepção mais abrangente de
meio-ambiente é difícil separar os fatores da organização social que
influenciam a qualidade ambiental e conseqüentemente a qualidade de vida.
Tais fatores estão intrinsecamente correlacionados e, portanto, as partes
são passíveis de compreensão apenas quando colocados na sua interação
dinâmica com o todo.
Para
Foucault (1979) a medicina urbana teve como uma de suas características
marcantes ser uma medicina das “coisas”, principalmente do ar e da água.
Isso foi devido à idéia, que tornou-se dominante na época, da importância
das condições do meio sobre a saúde, e que provocou o surgimento da
noção de salubridade - qual revelaria-se de grande importância
dentro da medicina social.
Salubridade
não é o mesmo que saúde, mas sim a noção de que as condições do meio e dos
elementos que o compõe, devem estar dispostos de maneira a permitir a
melhor saúde possível aos indivíduos. Aparece juntamente com a noção de
salubridade, a noção de higiene pública, que corresponde à técnica de
controle e modificação dos elementos materiais do meio capazes de
favorecer ou prejudicar a saúde. Seguindo essas concepções foram feitas
mudanças na urbanização de Paris naquele período, visando melhorar o fluxo
da água e do ar - elementos do meio capazes de influenciar a saúde-.
Outra
característica importante da medicina urbana é o surgimento do que
Foucault denomina “medo urbano”, ou seja, uma série de “medos” gerados
pelo crescimento descontrolado das cidades. A angústia que nasce desse
processo leva os indivíduos a criarem uma atitude de desconfiança, de
insegurança frente a sua nova situação. Daí surgirem, por exemplo, o medo
das oficinas e fábricas que estavam se constituindo, da aglomeração
populacional, das casas altas demais, das epidemias urbanas, dos esgotos e
principalmente medo dos cemitérios, que se encontravam em franca expansão
e se aproximavam cada vez mais das cidades.
Essa
segunda etapa é fundamental para nossa pesquisa, pois localiza o momento
em que o processo de urbanização começa a exercer influência definitiva
sobre a concepção de saúde pública,considerando no seu exercício as noções
de salubridade e higiene pública e conseqüentemente alterando o conceito
de qualidade de vida.
A terceira
etapa localizou-se na Inglaterra, a partir de meados do século XIX.
Foucault a denomina “medicina dos pobres, da força de trabalho, do
operariado”.
A principal
decorrência dessa etapa foi a criação de um “cordão sanitário” entre
pobres e ricos. Se não aconteceu uma efetiva manifestação de poder por
parte da “medicina urbana”, com a “medicina do operário” passa a
predominar a força para a execução de um processo de segregação entre
ricos e pobres.
As revoltas
que se sucederam desde o final do século XVIII e as doenças epidêmicas -
como a cólera que atingiu Paris em 1832 e se espalhou por toda Europa -
criaram uma situação propícia ao uso da coerção, pois tornara-se
impossível a coabitação entre ricos e pobres no mesmo tecido urbano.
Essa etapa
iniciou-se efetivamente com a implantação do “Health Service”, criado em
1875 pelo governo inglês. A função desse sistema era manter o controle da
vacinação, que passou a ser obrigatória para todos os indivíduos, além de
organizar o registro das epidemias e doenças potencialmente epidêmicas,
obrigando quem portasse alguma doença perigosa a declarar. Localizar os
locais insalubres, e eventualmente destruí-los, era também atribuição
desse sistema.
A “Lei dos
Pobres” foi influência fundamental na medicina inglesa do século XIX, na
sua transformação em “medicina social”. Com essa lei surge uma idéia
importante: uma assistência controlada, uma intervenção médica que é tanto
uma maneira de ajudar os mais pobres a satisfazerem as suas
necessidades mínimas de saúde - não permitindo que o façam por si mesmos
-, quanto um controle através do qual as classes dominantes - ou seus
representantes no governo asseguram a saúde dos pobres e,
conseqüentemente, a proteção dos ricos.
Foram os
desdobramentos dessa terceira etapa que marcaram mais profundamente o
surgimento dos sistemas médicos existentes atualmente, principalmente os
sistemas dos países avançados.
Esses
sistemas contemporâneos, na visão de Foucault (1979), são caracterizados
pela existência de três segmentos superpostos e coexistentes: medicina
assistencial (destinada a atender os pobres), medicina administrativa (que
trata de problemas gerais, como vacinação, controle de epidemias, etc.) e
medicina privada (que beneficia quem tem meios para pagá-la).
Foucault
preocupou-se em demonstrar que a medicina moderna possui um caráter
principalmente social, ou seja, não é individual nem determinada
exclusivamente como relação mercantil entre o médico e seu cliente. Há um
componente de dominação e controle dos indivíduos pelas instituições da
saúde através da prática médica. O domínio social sobre o corpo biológico
dos indivíduos é o ponto de partida dessa dominação.
Dupuy(1980)
afirma que a ecologia - enquanto questão já inserida dentro da realidade
concreta - coloca duas opções fundamentais: a aceitação do capitalismo
ecológico que vem se instaurando ou a possível escolha pela construção de
uma nova lógica social, na qual: “o livre desenvolvimento de todos seria
ao mesmo tempo o fim e a condição do livre desenvolvimento de cada um”.
Vamos
explicar o que vem a ser capitalismo ecológico. Uma das maiores ameaças a
ser enfrentada pela economia de crescimento capitalista seria um
“desaquecimento” seguido por insuficiência da demanda.
Por um
lado, essa transformação teria ocorrido através do surgimento de “bens
distintivos”, bens detentores de um elevado “status” social,ou seja,
produtos mais caros os quais estão por isso apenas ao alcance
daqueles indivíduos que querem e podem ficar à frente da competição
social. Isso conduziria a uma situação na qual, portanto, para se obter um
mesmo valor de uso seria necessário um valor de troca maior.
Por outro
lado ocorreu uma diminuição da duração de vida dos bens de consumo. Este
fato acabou agravando a situação já colocada pelos bens de consumo
distintivos, pois se torna necessário um valor de troca crescente para
assegurar o mesmo valor de uso. Por exemplo, para manter o “status” de bem
sucedido o indivíduo deve mudar de carro a todo ano, comprando sempre um
carro da moda, não importa se o consumo ou o nível de emissão de poluição
está ou não dentro de padrões razoáveis, importa que a posição de
prestígio do indivíduo dentro do grupo seja mantida.
Em outras
palavras, as condições que permitem o crescimento da demanda e a
“realização” - empregando o termo no sentido marxista - do valor de troca
produzido são exatamente as que provocam a perda de eficácia da economia.
Para Dupuy, apresenta-se aqui uma “contradição” básica do capitalismo,
exatamente entre a necessidade de assegurar uma demanda suficiente e a
“fuga para a frente” na corrida pela produtividade. Para complicar ainda
mais esta contradição, apresenta-se atualmente a crise ecológica. Em
resumo: “Efetivamente é aqui, ao nível da produção, e não mais apenas do
consumo, que aparecem condições que tornam necessários valores de troca
cada vez maiores para satisfazer valores de uso constantes. Aos custos
crescentes de produção da demanda acrescentam-se doravante os custos
crescentes de reprodução do sistema produtivo”.
A lógica da
economia de crescimento é colocada como sendo um problema que ameaça a
base do sistema produtivo, pois, é preciso um valor de troca crescente
para assegurar um mesmo valor de uso (devido à redução da duração dos
bens, principalmente dos bens tidos como “distintivos”). Esse processo
acaba afetando no custo da reprodução da força de trabalho, pois essa
lógica do crescimento origina situações de desperdício, de degradações do
meio ambiente, que alimentam a crise ecológica e se desdobram em fatores
como congestionamento dos solos e expansão do urbanismo industrial
obrigando os trabalhadores a deslocamentos domicílio-trabalho cada vez
mais longos e custosos; também leva à degradação das condições de vida, o
que se manifesta -por exemplo- através da crescente procura às
instituições médicas; além da produção de lazeres mercantis e dispendiosos
que o trabalhador muitas vezes não tem, sequer acesso, pois
não tem a mínima condição financeira de a eles recorrer.
Além disso,
há que se considerar ainda a questão da possibilidade de escassez de
matérias-primas e a rarefação de elementos naturais fundamentais (como a
água e o ar), o que deverá fazer com que as indústrias passem a se
preocupar cada vez mais em proteger o meio ambiente, simplesmente
para continuar a funcionar e não por inquietação filantrópica da famosa e
sinistra qualidade de vida. A ecologia, a qualidade de vida tornou-se um
freio ao lucro, o que surge então é a necessidade de transformá-la em algo
vendável, em uma mercadoria. Se a produção de bens materiais acabou
conduzindo à crise ecológica, o que seria importante agora é produzir
“bens imateriais”.
Agora vejam
a falta de opróbrio de Dupuy, analisemos a sua proposta para a melhoria da
qualidade de vida. In Verbis: “A satisfação destas necessidades
imateriais (saúde, cultura, preservação do meio ambiente, melhor
relacionamento social, enfim, todos os fatores que compõem o que
conhecemos por ”felicidade”) seria possível através de uma “nova divisão
internacional do trabalho” - usando as mesmas palavras do autor. Esta nova
divisão se efetivaria através do envio das indústrias pesadas para o
terceiro mundo, o que quer dizer um redesdobramento da indústria à escala
mundial.
O que Dupuy
salientou nesse momento foi a possibilidade da mudança no sistema
produtivo ocorrer não para melhorar a qualidade de vida das pessoas, mas
como uma imposição de caráter técnico, constituindo assim uma espécie de
“Capitalismo Ecológico”. O autor considera essa possibilidade como
elemento da capacidade que possui o capitalismo de integrar os
constrangimentos que surgem historicamente, a fim de não perecer.
E diz mais:
para Dupuy A “sociedade pós industrial” é apresentada como sendo um
novo progresso na libertação da humanidade, no que diz respeito às
necessidades materiais. Ou seja, graças ao aumento da produtividade do
trabalho (alcançada pela utilização crescente de inovações técnicas), as
necessidades materiais seriam completamente satisfeitas, podendo então os
homens preocuparem-se com a satisfação das necessidades mais “nobres e
etéreas”, ou ”imateriais”. Segundo Dupuy, esta “mitologia postiça” da
“sociedade pós-industrial” estaria escondendo o fato do desdobramento da
indústria à escala mundial.
O
Capitalismo ecológico, portanto, é resultante de duas necessidades.
Primeiramente, os países desenvolvidos devem reorientar seu crescimento
para produções menos destruidoras. Em seguida, no nível do capitalismo
internacional, uma relocalização das indústrias.
Tal
relocalização, para se manter estável, exigiria uma cartelização geral,
uma programação planetária da repartição e da utilização dos recursos
minerais e energéticos, uma planificação das técnicas e dos preços, em
resumo, todos os elementos de um capitalismo não concorrencial de
não-crescimento. Dupuy afirma neste momento, citando Michel Bosquet, que
esse é o argumento do “ecofacismo” ou “tecnofacismo”, sistemas definidos
como sendo a criação de: “um mundo limitado por técnicos e
tecnocratas, um Gulag na escala planetária”.
É
importante reafirmar que essas observações foram elaboradas partindo do
“Capitalismo Ecológico”, ou seja, como o capitalismo pode vir a responder
à crise ecológica.
Temos que
analisar ainda a contraposição a essas propostas do capitalismo ecológico,
ou seja, como o ecologismo tem respondido a estas questões.
São quatro
os temas principais de contestação do movimento ecológico:
O primeiro
tema é a questão da sobrevivência da humanidade na escala planetária. É
uma questão delicada, que remete entre outras coisas, à constatação de que
o modo de vida dos países mais ricos (EUA e países da Europa) não é
extensível a toda humanidade.
Podemos
tentar imaginar, por exemplo, se cada chinês ou se cada indiano tivesse
condições de possuir um carro, que é um dos maiores símbolos do “american
way of life”. Seria o caos. O impacto da emissão de gases tornaria o ar
irrespirável; as cidades seriam um problema, que tamanho deveriam ter as
ruas?; quanta matéria-prima e energia teriam que ser utilizada para a
fabricação desses carros? Seria um verdadeiro despropósito.
O segundo
tema da contestação ecológica é a crítica do fetichismo das forças
produtivas e a crítica da economia. O crescimento econômico como idéia
subjacente ao desenvolvimento é o principal objeto de crítica. Segundo
Dupuy o crescimento econômico é legitimado contemporaneamente porque
tenderia a reduzir as desigualdades que se verificam no campo social.
Entretanto, isto não é possível, uma vez que -como já foi dito
anteriormente - os “bens” produzidos por este sistema de crescimento,
tanto por sua própria natureza (os bens “distintivos”) como por seus
efeitos deletérios sobre o meio ambiente, não podem ser eqüitativamente
repartidos sem perder seu valor de uso e seu valor simbólico. A questão
que se coloca para o autor é a seguinte: “Como poderia sair daí uma
sociedade justa e pacificada?”
O terceiro
tema é a crítica das ferramentas e do modo de produção industrial. O que
se coloca em questão neste momento é o projeto técnico que caracteriza a
sociedade industrial.
O quarto
tema de contestação ecologista trata da crítica do Estado e da heteronímia
política. Segundo Dupuy, a maior parte dos ecologistas coloca-se dentro da
corrente política dita “autogestionária”, a qual tem como fundamentos a
redução drástica da heteroregulação centralizada que é o poder do Estado e
o reforço da sociedade civil.
Estes são
os pontos principais sobre os quais se detêm a crítica ecologista ao
sistema capitalista. É importante registrar que essa crítica se
desenvolveu tendo como interlocutor, além dos liberais, os marxistas.
Assim, é grande a elaboração teórica que envolve estas questões, que foram
colocadas aqui apenas em seus elementos mais evidentes. O que quisemos
apresentar com essas pinceladas foi o posicionamento dos ecologistas
radicais descentralizadores - que, na verdade, não constituem um bloco
homogêneo .
Finalizando
estas considerações sobre alguns aspectos da obra de Dupuy, podemos
afirmar que, se por um lado à qualidade de vida é apresentada como sendo
freio ao sistema capitalista e por isso tem a capacidade de fazer com que
este sistema se redirecione (sem entretanto perder as características
básicas que o identifica - exploração em diversos níveis,
onipotência do mercado, etc.). Por outro lado à qualidade de vida pode
servir e serve, como bandeira de luta por uma sociedade mais igualitária e
melhor organizada em sua inserção ecológica.
No inicio
dos anos 80 Ottaway salientou que não há sintonia entre a preocupação do
“leigo” em preservar sua qualidade de vida e a atuação dos cientistas. O
conflito nasce da escala diferenciada de percepção dos mesmos problemas
(individual-regional para os leigos e “mundial” para os cientistas). Ou
seja, os leigos são contra a utilização de “protetores das plantas”
(pesticidas), mas, segundo o autor, estes agentes aumentam enormemente as
colheitas - afastando um outro problema que seria a fome generalizada. O
que não significa, entretanto, que o autor defenda o uso de tais “armas”
para criar “um deserto como resultado da ganância ou da indiferença”.
Berlinguer(1983) trata diretamente o conceito de qualidade de vida. Ele
afirma que as preocupações com a deterioração da qualidade de vida nos
países industriais têm estimulado o interesse para uma possível aferição
desta qualidade. Entretanto, Berlinguer coloca que tal aferição tem sido
insatisfatória até o momento, arriscando-se a deslocar para um
“subjetivismo
impalpável” a exigência de avaliar estatisticamente a adequação das
condições sócio-ambientais em relação às exigências humanas.
A proposta
de Berlinguer é considerar a doença - além de um sofrimento individual e
de desvio de uma normalidade biológica ou social historicamente mutável
também como um “sinal” estatisticamente relevante e precocemente
calculável de alterações do equilíbrio homem-ambiente, alterações estas
induzidas pelas transformações produtivas, territoriais, demográficas e
culturais. Segundo o autor estas alterações se revelam incontroláveis nas
suas conseqüências. Percebemos então que a qualidade de vida diz respeito
ao equilíbrio entre as condições sócio-ambientais e as exigências humanas.
Neste sentido a doença emerge como um “sinal”, ou poderíamos dizer
indicador, do nível de qualidade de vida.
Berlinguer,
por fim, enfatiza que a relação homem-ambiente é um dos principais
terrenos da luta social, política e cultural. Do ponto de vista da
política ele afirma que:
“Somente
dominando a sociedade é possível controlar as forças da natureza, combater
aquele primário fator patógeno que é o capital, aumentar a quantidade e
melhorar a qualidade da vida”.
Gallopín(1986)
considera a qualidade de vida dentro de um espectro diferenciado ao de
Berlinguer, considerando a saúde como ponto referencial. Para ele é
fundamental para a conceituação de qualidade de vida a referência pessoal
individual. Este conceito é concebido como resultante da saúde
psicossomática de um indivíduo (avaliada objetiva e intersubjetivamente) e
do sentimento (subjetivo) de satisfação. A saúde por sua vez depende dos
processos internos do indivíduo e do grau de cobertura das necessidades. A
satisfação depende dos processos internos e do grau de cobertura dos
desejos e aspirações.
Os
“satisfatores” são os elementos cujo uso e consumo determinam a cobertura
de uma necessidade, desejo ou aspiração. Alguns “satisfatores” são
intra-humanos, provenientes do próprio indivíduo, enquanto outros
provêm do ambiente que envolve o indivíduo, o qual os obtém através de
suas atividades. Assim, as condições do ambiente - tanto em seus aspectos
físicos como sociais - que envolvem o indivíduo, incidem na possibilidade
de satisfação de suas necessidades, desejos e aspirações, incidindo -
portanto - diretamente em sua qualidade de vida.
Por um lado, o estado do ambiente da sociedade também pode influir sobre a
qualidade de vida dos indivíduos que pertencem a esta sociedade, mas esta
influência ocorre de modo menos direto. Por exemplo, uma sociedade pode
ter cobertos os seus requerimentos de recursos naturais e não satisfazer
(por razões atribuíveis a sua organização interna) as necessidades
alimentares mínimas de uma parte importante de sua população, ou pode ter
déficit de recursos e possibilitar a satisfação das necessidades (pelo
menos as básicas) de todos os seus membros.
Por outro
lado, as condições do ambiente de uma sociedade, somadas à organização
interna do sistema humano societal, são os fatores principais que incidem
sobre a qualidade de vida dos indivíduos. Neste sentido, o ambiente físico
da sociedade está mais diretamente relacionado com o ambiente físico dos
indivíduos, sem perder de vista que a organização interna da sociedade
está mais diretamente relacionada com o ambiente social dos indivíduos,
mesmo que não de forma exclusiva.
Neste
contexto, a qualidade de vida pode ser utilizada como um conceito
unificador, o qual permite relacionar as necessidades humanas, os
ambientes individuais e sociais, e o desenvolvimento humano.
Cruz(1985)
considera que a concentração populacional, através dos processos de
urbanização, assim como o problema do acelerado crescimento demográfico
não são os causadores, em última instância, da degradação do planeta, mas
são adjuntos de outros fatores - sem cuja regulação conjunta toda a
tentativa de resolver a crise ecológica seria totalmente ineficaz.
Para Cruz,
a fonte dos problemas ecológicos encontra-se no sistema econômico que se
instaurou após a revolução industrial. Os principais problemas ecológicos
gerados por esse sistema (em torno dos quais começaram a se organizar os
grupos que deram origem aos movimentos ecologistas) são reunidos em três
blocos: surto demográfico e desigual distribuição de riqueza; penúria e
degradação dos recursos; poluição crescente. Para este autor, tanto a
destruição massiva do meio ambiente quanto a degradação da qualidade de
vida podem ser explicadas como sendo conseqüências da ação combinada
destes três blocos.
Sobre a
questão demográfica, ele afirma que uma política demográfica que levasse
em conta a qualidade de vida e a preservação do meio ambiente, teria que
partir da análise das diferenças regionais do Globo, e não de “visões
mecanicistas como as propugnadas pela política norte-americana”.
Donde
podemos conclui que a autor mantém uma constante preocupação do
autor em afirmar que a preservação do meio ambiente deve passar pela
melhoria das condições de vida do homem, mas também possibilitar a
sobrevivência dos diversos ecossistemas do planeta. Percebemos que há aí
uma divisão clara: de um lado encontra-se a qualidade de vida humana, do
outro a natureza, e entre esses dois extremos está a “evolução”
devidamente limitada para evitar a destruição massiva de base material que
a torna possível.
Ao
adentrarmos nos anos 90 as questões variam um pouco.
Assim,
Ehrlich(1990) ao analisar o crescimento demográfico (tendendo a crescer
ainda mais, segundo os dados do autor) aponta para a que possibilidade da
natureza promover um “controle da população” (através de colheitas fracas
provocadas pelo aquecimento global, por exemplo). Mais especificamente,
através da fome já que essa atitude não é tomada pela própria humanidade.
Ou seja, uma verdadeira seleção natural onde sobreviveria o mais forte.
Ao criticar
os setores da sociedade que são contrários ao controle da natalidade (como
a Igreja Católica, por exemplo), setores estes que afirmam ser
“teoricamente possível” alimentar 40 bilhões de pessoas na Terra, Ehrlich
coloca a questão fundamental: o que deverá acontecer com a qualidade de
vida?
Roche 1990)
tecendo considerações sobre o meio ambiente e o desenvolvimento, procura
enfatizar a dimensão cultural da qualidade de vida. Ele afirma que, em
conseqüência da predominância de uma racionalidade “prática” ou
“utilitarista”, a presença da qualidade de vida está determinada
contemporaneamente pela capacidade social ou individual de incrementar os
seus benefícios potenciais, independentemente de suas conseqüências reais
para a comunidade dos seres humanos.
Assim, os
governos medem seu êxito ou seu fracasso através de elementos “objetivos e
quantificáveis”, e não em função da realização humana e da “felicidade” de
seus povos.
Roche, sem
perder de vista que as condições objetivas de sobrevivência podem
determinar um certo comportamento em relação à realidade ambiental, coloca
que há numerosas determinações simbólicas que devem ser tomadas em
consideração quando se vai analisar esta questão.
Dentro
desta perspectiva o autor sugere que devem ser empregadas três dimensões
de indicadores para medir a qualidade de vida.
Em primeiro
lugar o autor descreve o que ele denomina por “indicadores de dimensão
cultural”, afirmando que mesmo que esses fatores não sejam de fácil
valorização empírica, trata-se da necessidade de criar com eles uma noção
de categoria quantificável para medir a felicidade humana.
Dentre os
possíveis indicadores dessa dimensão estão: conceitos de terra,
propriedade e pátria, “arraigo territorial”; o sentido dominante das
relações humanas, privilégio da família e amizade sobre a produção e a
competência; a forte diferenciação dos atributos por sexo; o consenso como
instrumento de relação; etc.
Os
“indicadores de dimensão ambiental” vêm logo em seguida. Estes indicadores
podem ser “duros” (verificáveis inclusive estatisticamente) ou “brandos”
(de percepção e valorização por parte do indivíduo”). Os indicadores de
dimensão ambiental permitem avaliar o desenvolvimento relativo das
condições existenciais do homem em sociedade.
Dentre os
indicadores desta dimensão são colocados: a educação e o trabalho como
meios para a mobilidade social; as condições do habitat (serviços, espaço,
clima, etc.), como níveis de qualificação do meio ambiente ecológico; as
condições econômicas (acesso ao consumo e a um nível relativo de
conforto); o acesso a instituições intermediárias (partidos políticos,
sindicatos, clubes, etc.) como instrumentos de participação social; acesso
aos meios de comunicação social como mecanismo de avaliação do “entorno” e
instrumento para a tomada de decisões econômicas e políticas; etc.
O tipo de
análise proposta, portanto, é bastante complexificada, tendo em vista que
a elaboração de indicadores referentes a qualidade de
vida-ambiente-desenvolvimento deve levar em consideração também o grau de
correspondência entre as expectativas do grupo social e o nível de
satisfação das mesmas.
Mais
recentemente, Leal(1991) trabalhou o conceito de desenvolvimento
sustentável como uma alternativa possível para os países latino-americanos
nos anos 90. Retomando a crítica ao sistema de saúde, este autor coloca a
qualidade de vida em relação direta com a qualidade da saúde.
Tickell
(1992), em um artigo que trata especificamente sobre a conceituação de
qualidade de vida, não traz muitas novidades em relação aos autores que já
consideramos até aqui. Para Tickell riqueza é um conceito altamente
subjetivo. É um produto da qualidade de vida. Mas, para ter significado,
qualidade deve ser vista sob duas perspectivas: da perspectiva de todos os
seres humanos em uma sociedade global e da perspectiva de todos aqueles
inumeráveis companheiros de quem dependemos inconscientemente. Precisamos,
segundo o autor, de um novo respeito por ambos
Concluindo esta primeira parte vejamos alguns dados sobre a
urbanização fornecidos pela ONU, através do UNFPA(1992):
Em 1950
29% (vinte e nove por cento) da população mundial vivia em cidades. Toda a
área urbana do Planeta possuía 734 milhões de habitantes e somente duas
cidades (Londres e Nova York) possuíam mais de oito milhões de habitantes.
Já em 1990
a população urbana mundial mais do que triplicou, chegando aos 2.390
bilhões de pessoas, o que representa 45% da população total. Existem agora
vinte cidades com mais de oito milhões de habitantes cada uma - sendo que
quatorze delas localizam-se nos países periféricos. Estes países, em 1950,
comportavam 39% da população urbana mundial; em 1990 este número saltou
para 63%.
Um
crescimento urbano desta magnitude acabou gerando demanda por serviços de
infra-estrutura (água tratada e encanada, saneamento básico, transporte,
moradia,etc.), os quais dificilmente poderiam ser atendidos no curto prazo
em que ocorreu este “espetacular” crescimento das cidades.
Podemos
localizar, então, neste fenômeno um dos principais fatores de influência
sobre a definição da qualidade de vida - pelo menos do ponto de vista dos
indicadores “objetivos”. E a urgente necessidade de um manejo sustentável,
tendo em vistas, a própria sobrevivência da humanidade.
Há que se
conceder ao homem do campo todas as condições, para que ele, permaneça na
zona rural, com políticas que desestimulem a emigração, contendo deste
modo a explosão demográfica que vêm ocorrendo nas cidades de todo o mundo.
3.
CONCEITO DE
QUALIDADE DE VIDA NO DECORRER DA HISTÓRIA BRASILEIRA
Para Silva (1978) a questão da destruição do meio ambiente não é nova, mas
ganha uma dimensão inquietadora ao se pensar que pelo menos dois fatores,
cada vez mais ponderáveis, contribuem para o depauperamento dos recursos
da natureza, com prejuízos para a qualidade de vida humana e
empobrecimento da paisagem. Esses dois fatores são o progresso da
tecnologia científica e o constante crescimento da população do globo.
No que se
refere a urbanização o texto coloca que o mito de que toda cidade deve ser
grande precisa ser revisto, se não pelo aspecto qualidade de vida, que o
seja pelo próprio fator econômico, pois é infinitamente mais oneroso
recuperar qualquer coisa do que construí-la.
Coimbra
(1985) trata mais detidamente a questão da qualidade de vida, chegando
inclusive a elaborar uma definição do termo. Ele utiliza-se
recorrentemente da análise etimológica dos termos e expressões
relacionados ao tema. Através deste tipo de análise o autor elabora
definições descritivas, ou seja, definições que embora não sejam
essenciais (capazes de esgotar o sentido essencial do ser definido, da
maneira mais concisa possível), possibilitam o entendimento e compreensão
dos elementos tratados.
Colocaremos
a seguir três importantes definições elaboradas por este autor,
quais sejam: meio ambiente, desenvolvimento e qualidade de vida (da qual
nós explicitaremos os detalhes da elaboração).
Assim, meio
ambiente é definido descritivamente como sendo:
“Conjunto
dos elementos físico-químicos, ecossistemas naturais e sociais em que se
insere o Homem, individual e socialmente, num processo de interação que
atenda ao desenvolvimento das atividades humanas, à preservação dos
recursos naturais e das características essenciais do entorno, dentro de
padrões de qualidade definidos.”
Sua
definição de desenvolvimento aproxima-se do que atualmente vem sendo
chamado de “desenvolvimento sustentável”. Portanto, desenvolvimento é:
“Um
processo contínuo e progressivo, gerado na comunidade e por ela assumido,
que leva as populações a um crescimento global e harmonizado de todos os
setores da sociedade, através do aproveitamento de seus diferentes valores
e potencialidades, em modo a produzir e distribuir os bens e serviços
necessários à satisfação das necessidades individuais e coletivas do ser
humano por meio de um aprimoramento técnico e cultural, e com menor
impacto ambiental”.
Ao abordar
qualidade de vida a preocupação específica deste texto de Coimbra é trazer
à luz uma análise de cunho “humanista” sobre o conceito, análise esta que
pretende integrar-se com abordagens científicas e técnicas, teóricas e
aplicadas, sem entretanto entrar em confronto com elas. Tomando
separadamente cada elemento do conceito, para então, defini-lo.
Assim, “qualidade” é colocada como sendo um atributo da substância,
qualquer substância. Seguindo o autor, vamos tomar como exemplo a
expressão “água potável”. Neste caso a substância (água) possui uma
qualidade que lhe é inerente (potável) e que traduz uma
maneira de ser da substância. Dessa maneira, a qualidade é algo
acrescentado ao ser, que não lhe é essencial; porém, na realidade concreta
lhe é inseparável e indispensável para existir “como tal”. Pois, potável
ou não, água é sempre água, mas para que seja “água potável” é necessário
que possua atributos específicos (no caso, atributos relacionados com a “potabilidade”).
Partindo da
conceituação etimológica, Coimbra afirma que a “vida” pode ser considerada
sob dois ângulos: como fato biológico (a vida se encontra em todo ser
intrinsecamente organizado, no qual suas partes integrantes estão unidas
por um mesmo princípio vital; o fato biológico, embora esteja presente em
todo ser vivo, torna-se mais eminente na realidade psicossomática dos
organismos superiores) e como fato existencial (a vida desenvolve-se nas
múltiplas atividades específicas dos seres racionais, principalmente na
esfera do psicossocial). Na realidade concreta tais aspectos se apresentam
indissociáveis, muito embora possamos aplicar dois conceitos ou categorias
à vida do ser humano. Definindo qualidade de vida como sendo:
“A
somatória de todos os fatores positivos, ou ao menos de parte
significativa dos mesmos, que determinado meio reúne para a vida humana em
conseqüência da interação Sociedade-Meio Ambiente, e que atinge a vida
como fato biológico, de modo a atender às suas necessidades somáticas e
psíquicas, assegurando índices adequados ao nível qualitativo da vida que
se leva e do meio que a envolve.”
Podemos
então considerar que há uma relação dialética entre o “nível de vida”
(condição econômica dos indivíduos) e a “dominação política” (exercício do
poder político em favor de um determinado segmento).
Percebeu-se
assim que, as dores mal definidas e constantes visitas a postos de saúde,
relatados em diversos municípios do Estado de São Paulo, seriam o
resultado de uma relação de medo frente ao ambiente que se mostra hostil,
ou seja, uma cidade em expansão acelerada, na qual os problemas de
poluição e degradação ambiental começam a se delinear; onde o indivíduo
não possui referências seguras de relacionamento social, afetivo, etc.;
onde ainda não se manifestaram claramente para os indivíduos - enquanto
reclamantes de uma ordem que se lhes apresenta como adversa -
os canais adequados para o exercício pleno da cidadania, fato esse que
leva esses indivíduos a procurarem nos médicos e no serviço de saúde uma
possibilidade de ampliação das suas reivindicações, tornando-as
perceptíveis às autoridades competentes.
Assim, as
doenças mal especificadas poderiam estar agindo como sinal de deterioração
da qualidade de vida da população, a qual não possuindo uma percepção dos
canais possíveis de externalização de seus anseios frente a esse processo,
acabam por somatizar esses anseios, codificando-os em sintomas vagos.
A definição
de qualidade ambiental engloba os aspectos reais e mais refinados da
qualidade de vida (entendida aqui como saúde e bem estar social em termos
abrangentes), os bens de cidadania e as repercussões disso numa totalidade
(o que por seu turno envolve as condições de moradia, de acesso a bens e
serviços básicos, participação política, condições de trabalho, salário e
segurança), e também a possibilidade de aquisição de bens de consumo,
compatíveis com a sobrevivência - em aspecto amplo - do indivíduo e
sua família.
O capítulo
seguinte representa um esforço no sentido de introduzir a discussão sobre
os indicadores sociais.
4.
A QUALIDADE
DE VIDA DO PLANO DA SOCIEDADE MODERNA
A expressão
qualidade de vida foi empregada pela primeira vez pelo presidente
dos Estados Unidos, Lyndon Johnson em 1964 ao declarar que "os
objetivos não podem ser medidos através do balanço dos bancos. Eles só
podem ser medidos através da qualidade de vida que proporcionam às
pessoas." O interesse em conceitos como "padrão de vida" e "qualidade
de vida" foi inicialmente partilhado por cientistas sociais, filósofos e
políticos. O crescente desenvolvimento tecnológico da Medicina e ciências
afins trouxe como uma conseqüência negativa a sua progressiva
desumanização. Assim, a preocupação com o conceito de "qualidade de
vida" refere-se a um movimento dentro das ciências humanas e
biológicas no sentido de valorizar parâmetros mais amplos que o controle
de sintomas, a diminuição da mortalidade ou o aumento da expectativa de
vida.
O termo
qualidade de vida como vem sendo aplicado na literatura médica não
parece ter um único significado. "Condições de saúde", 'funcionamento
social" e "qualidade de vida" tem sidos usados como sinônimos e a própria
definição de qualidade de vida não consta na maioria dos artigos que
utilizam ou propõe instrumentos para sua avaliação. Qualidade de vida
relacionada com a saúde e Estado subjetivo de saúde são
conceitos afins centrados na avaliação subjetiva do paciente, mas
necessariamente ligados ao impacto do estado de saúde sobre a capacidade
do indivíduo viver plenamente.
Analisar a
qualidade de vida a partir do recorte da dor sentida, das
queixas que se repetem e que não permitem uma abordagem no campo
clínico é, ainda, mais intricado. Essa complexidade advém de algumas
perguntas fundamentais que provocam o questionamento de parâmetros
fortemente estabelecidos para o conjunto das ciências e da sociedade.
Embora se possa elencar uma infinidade de questionamentos, o mais
importante a ressaltar é que estamos vivendo uma época onde os aportes de
segurança para os indivíduos se alteraram em conseqüência da transformação
da sociedade em, pelo menos, algumas dimensões identificáveis: sociais,
tecnológicas, culturais e ambientais. Tais transformações têm provocado um
descompasso sem precedentes na história da humanidade e em sua cultura,
entre um projeto socialmente identificável para a melhoria da qualidade de
vida no plano coletivo e seus reflexos concretos no plano individual,
restando, assim, uma amarga dúvida sobre o que se consegue efetivamente
atingir de melhorias socialmente construídas, quer seja enquanto um
projeto coletivo, quer seja na dimensão individual.
O tema
qualidade de vida transformou-se, atualmente, num daqueles lapidáres que
busca responder a tudo que é exaustivamente debatido e apresentado sobre
diversas óticas. Está presente em tudo: na literatura especializada, em
slogans de prefeituras municipais e em plataformas políticas
(principalmente em época eleitoral, como a atual, o número de políticos
ambientalista aumenta substancialmente). É como se tratasse de um ideal da
contemporaneidade. Na política, na economia, na vida pessoal...em tudo
está presente e se busca qualidade de vida.
Porém, não
se identifica claramente o que vem a ser qualidade de vida. Alguns autores
já assinalaram que esse conceito é, de uma certa forma, antigo e se
constitui em uma procura utópica do ser humano: melhorar a qualidade de
vida significaria viver melhor, tanto no sentido objetivo quanto subjetivo
de ser, uma corrida contra o tempo e contra o imponderável.
O indivíduo
busca sempre melhorar suas condições objetivas e subjetivas de vida e é
essa necessidade que o movimenta ao longo de sua existência. Qualidade de
vida do indivíduo e da vida social, neste contexto, será entendida como a
complementaridade de dimensões subjetivas e objetivas, materiais e
abstratas que estão presentes nas necessidades e carências humanas. Assim
colocada, algumas perguntas se impõem: é possível, a partir destas
transformações que se desenvolvem na sociedade melhorar as condições de
existência, a qualidade de vida, do conjunto social? É possível, ainda,
levando-se em conta a profunda crise dos suportes fortemente estabelecidos
no interior da sociedade vivenciar uma qualidade de vida plena? Que
indivíduo é esse que se encontra hoje submetido a essas transformações,
relacionadas às dimensões sócio-ambientais e culturais, à crescente crise
de valores e conseqüente anomia que se abate sobre ele? Afinal, o
que é melhorar a qualidade de vida? o que é qualidade de vida?
Pode-se até
afirmar que a qualidade de vida objetivamente tem melhorado. Alguns
indicadores sociais estão aí para comprovar essa afirmativa. Quando se
pensa numa cidade como Campinas, por exemplo, sabe-se que o discurso
oficial tem reforçado, ao nível estadual, nacional e mundial, a
perspectiva de que a mesma possui um nível invejável de qualidade de vida.
Outros
aspectos entram em cena: os subjetivos, que incluem os desejos e as
carências mais íntimas do ser humano, onde filigranas e sutilezas da
capacidade de verbalização estão presentes para o entendimento da
qualidade de vida.
A hipótese
central que se coloca a partir das questões anteriormente levantadas é
que, sociedades em processo de transformação e que apresentam tal
complexidade acabam por interferir substantivamente na qualidade de vida
dos indivíduos, pelo fato de haver conseqüente mudança não só de valores
sociais e econômicos mas, principalmente, culturais, que afetam o modo de
ser e a saúde mental dos indivíduos, implicando numa qualidade de vida
comprometida.
Para
demonstrar como estas transformações afetam de forma substantiva a
qualidade de vida dos indivíduos, transcreveremos uma pesquisa realizada
pela Fundação Procon-SP.
Durante o
final de outubro/2001 foi realizada pesquisa qualitativa , com 55
entrevistas sobre o tema qualidade de vida. O advento da sociedade de
consumo introduziu nova variável para a definição de qualidade de vida ou
dos meios que necessitamos para alcançá-la. Existe uma correlação direta
entre as possibilidades financeiras de um indivíduo e a sua qualidade de
vida, mas será que todos entendemos qualidade de vida como sendo alcançada
da mesma maneira?
Diante da
dificuldade de conceituação foi proposta a realização de pesquisa
qualitativa sobre o tema, ouvindo o relato de 50 entrevistados das
diversas faixas sócio-econômicas, que puderam discorrer sobre o conceito
de qualidade de vida, o que se necessita para ter que alcançá-la e como se
insere o consumo nesta busca constante de bem estar.
Com isso,
foi possível avaliar e analisar a relação que se estabelece entre o
consumo de diversos produtos e serviços e qualidade de vida e,
principalmente, a importância da atuação do Procon no que diz respeito à
possibilidade de consegui-la quando o consumo é um meio para alcançá-la.
A pesquisa
concluiu que as necessidades para as classes A, B, C, D/E são as mesmas,
independentemente do estrato social, porém a conceituação de qualidade de
vida é ampliado na medida em que se tem acesso aos produtos e serviços que
satisfazem as necessidades básicas da população. O maior acesso ao consumo
é tido como meio para poder ter qualidade de vida, mas não a garante.
O conceito
de necessidade básica é influenciado pela sociedade de consumo, tendo em
vista itens como lazer, alimentação, facilidades domésticas, ficando
difícil perceber onde termina a necessidade e começa o desejo.
O medo da
violência permeou a grande maioria das entrevistas, sendo citada pelo
menos uma vez como impedindo a qualidade de vida.
A falta de
tempo também foi destacada como impedimento para a maioria.
O medo de
perder o poder aquisitivo cresce à medida em que os entrevistados
pertencem a uma classe mais abastada.
4.1 Metodologia da Pesquisa
55
entrevistas, sendo 15 com pessoas das classes A, B e C e 10 pertencendo às
classes D/E (Critério Brasil). Os entrevistados discorreram livremente
sobre tópicos conceito de qualidade de vida, o que é, como alcançá-la,
quando isso é possível e o que falta para atingir a qualidade de vida que
se entende como adequada.
Obs.: nesse
tipo de pesquisa não existe questionário e os resultados não são dados em
percentagens, mas em termos de tendências de comportamento ou opinião de
determinada classe social.
4.2
Resultado
da Pesquisa
Para as
classes de menor poder aquisitivo (D/E) ter qualidade de vida significa
ter acesso ao consumo de produtos e serviços que garantam a satisfação de
suas necessidades básicas (alimentos, medicamentos, casa ou terreno para
construir, dinheiro para comprar “coisas importantes”, tais como máquina
de lavar, aparelho de tevê melhor, comprar ou trocar móveis e outros bens
de consumo). O lazer também é citado por todos os entrevistados e consiste
em: ir ao cinema, shows, bailes, ter um lugar para jogar bola (homens).
Para as mulheres, especialmente as mais jovens, a compra de roupas é vista
como muito importante, sendo possível “se tiver mais emprego”, “se o
salário for maior” e “se tivesse estudado mais”.
Para a
classe C aumentam os bens de consumo que podem proporcionar qualidade de
vida (automóvel, convênio médico e odontológico) existindo uma consciência
de que o tempo é condição para que haja lazer (cinema, shows, praia,
viagens para ver a família etc.). Mesmo quando o lazer é gratuito (espaços
públicos) há necessidade de se ter algum dinheiro (sorvete, transporte
etc.).
A educação
é vista como o passaporte para melhores salários e para poder se fazer o
que realmente se gosta. São citados como necessários cursos de inglês e de
informática.
A falta de
tempo é considerada como sendo também, a responsável pela má qualidade de
vida.
A classe B
entende qualidade de vida como conseqüência de sua possibilidade de ter
acesso aos bens de consumo que considera básicos (casa própria; escola;
bom carro, mas também bom transporte público; convênio médico e
odontológico, condições de uma vida saudável, tais como uma boa
alimentação, academia, menos stress).
O lazer é
tido como essencial, sendo citadas viagens de férias, nacionais e algumas
internacionais, sair com amigos etc.
Há uma
percepção de que só isto não bastaria, ainda que tivesse (considera que
não tem), pois também seria necessário ter um ambiente saudável, sem
poluição, sem ser vítima da violência direta ou indiretamente: “Poder
sonhar e lutar para melhorar de vida e não ter que ter medo do que
acontece quando você consegue”.
Maior poder
aquisitivo, melhor remuneração para o que faz, tempo para o lazer e para a
família são as maiores queixas do que impede a qualidade de vida.
Fiscalização dos serviços públicos e privados são condição para não ter
sempre que discutir para conseguir ter seus direitos respeitados.
Percebe-se
preocupação em oferecer para os filhos mais do que a condição financeira
permite, especialmente para os adolescentes, no sentido de que possam ter
qualidade de vida no futuro.
A classe A
mostra mais claramente o que muitos entrevistados da classe B também
demonstram quando conceituam qualidade de vida: consciência de que o
acesso aos bens de consumo já lhes garante a possibilidade de ter
qualidade de vida, porém percebem que isso não basta e ampliam o conceito
para além do consumo, almejando auto-realização, liberdade, felicidade e
paz de espírito.
Diante de
uma pesquisa como esta, podemos chegar com facilidade a seguinte
conclusão: nas classes C, D e E, onde a luta pela sobrevivência é
muito maior, não há espaço para consciência ecológica; percebe-se que é
uma sociedade fortemente influenciada pelos meios de comunicação em massa,
pois considera os ditames deste como, essências para se atingir uma boa
qualidade de vida.
Nas classes
A e B, começa haver uma consciência ecológica, começa a perceber-se a
importância da preservação ambiental, com vistas a uma melhor qualidade de
vida no futuro.
E porque
esta distância de ponto de vista entre as classes? Porque as classes C, D
e E, sequer, consideraram a questão da preservação ambiental poder influir
na sua qualidade de vida? Embora nossa Constituição garanta o direito a
sadia qualidade de vida (art. 225) e direitos sociais, inseridos no
Capitulo II da Constituição, tais princípios não são executados em sua
integralidade, e sem a garantia do cumprimento desses direitos básicos,
não há que se falar em qualidade de vida. Quando se luta pela própria
sobrevivência, torna-se difícil, lutar também pela sobrevivência de
outrem, no nosso caso, do meio ambiente. Quando se luta pela sobrevivência
hoje, sendo muitas vezes, sequer, impossível vislumbrar o próprio futuro,
como poderemos exigir destas pessoas que vislumbrem o futuro do meio
ambiente.
Embora não
haja um consenso a respeito do conceito de qualidade de vida, podemos
distinguir três aspectos fundamentais referentes ao construto qualidade
de vida, quais sejam: (1) subjetividade; (2) multidimensionalidade (3)
presença de dimensões positivas (p.ex. mobilidade) e negativas (p.ex.
dor).
O
desenvolvimento destes elementos conduziu a definição de qualidade de
vida como a percepção do indivíduo de sua posição na vida no contexto
da cultura e sistema de valores nos quais ele vive e em relação aos seus
objetivos, expectativas, padrões e preocupações. O reconhecimento da
multidimensionalidade do construto refletiu-se na estrutura do instrumento
baseada em 6 domínios: domínio físico, domínio psicológico, nível de
independência, relações sociais, e espiritualidade / religião / crenças
pessoais, e nas classes mais privilegiadas consciência a respeito da
preservação do meio-ambiente.
4.3 Pesquisa Mundial de Qualidade de
Vida
ý
Suíça é apontada como a melhor em qualidade de vida em três
cidades Zurique, Geneva, e Bern.
ý
Em seguida vêm Canadá, Austrália e Estados Unidos,
especificamente nas cidades de Toronto, Melbourne e São Francisco.
ý
Brasília em 103º lugar aparece seguida por São Paulo em
107º, Rio de Janeiro em 108º e Manaus em 128º.
ý
As três cidades com o pior índice de qualidade de vida no
mundo são Nova Deli, na Índia em 162º lugar; Bagdá no Iraque em 213º e
Brazzaville no Congo em 215º .
A mais
recente pesquisa de qualidade de vida desenvolvida pela Mercer Human
Resource Consulting analisou 215 cidades ao redor do mundo.
Esta análise é feita com o fim de auxiliar governos e grandes companhias a
alocar funcionários em posições internacionais.
A definição
de auxílios relacionados à diferença de qualidade de vida - qualidade e
facilidade de acesso, e não custo - mais conhecido como Hardship”.
A pesquisa
é realizada duas vezes ao ano e atualizada sempre que um fato relevante
ocorra. Os resultados aqui analisados refletem, em sua maior parte, dados
de novembro de 2002, atualizados para levar em conta circunstâncias que
causaram mudanças. Em particular, a avaliação será revisada em caso de
novos acontecimentos no Oriente Médio. Foram considerados 39 fatores de
qualidade de vida em cada cidade, incluindo fatores políticos, sociais,
econômicos e ambientais, segurança pessoal, saúde, educação, transporte e
outros serviços públicos.
4.3.1 Resultados Gerais
Para facilitar a comparação, Nova York foi utilizada como índice padrão
para a qualidade de vida, com índice de 100 pontos.
A pesquisa revelou que Zurique continua como a melhor cidade do mundo,
fornecendo a melhor qualidade de vida, enquanto Brazzaville no Congo
continua como a cidade menos atrativa, apesar de seu índice ter subido um
ponto em relação ao ano passado, para 28,5.
O grande número de problemas políticos e econômicos que África e América
Latina vêm enfrentando acabaram rebaixando a colocação de muitas cidades
este ano, aumentando ainda mais a distância entre as cidades no topo e no
final da lista.
|
Ranking
Mundial-Pesquisa de Qualidade de Vida 2003
Fonte: Mercer Human
Resource Consulting
|
|
Rank 2003 |
Rank 2002 |
Cidade |
País |
|
1 |
1 |
Zurique |
Suíça |
|
2 |
4 |
Geneva |
Suíça |
|
5 |
10 |
Bern |
Suíça |
|
12 |
18 |
Toronto |
Canadá |
|
15 |
12 |
Melbourne |
Austrália |
|
20 |
18 |
São Francisco |
Estados Unidos |
|
23 |
35 |
Dublin |
Irlanda |
|
31 |
15 |
Oslo |
Noruega |
|
31 |
25 |
Brisbane |
Austrália |
|
75 |
73 |
Buenos Aires |
Argentina |
|
103 |
101 |
Brasília |
Brasil |
|
107 |
109 |
São Paulo |
Brasil |
|
108 |
109 |
Rio de Janeiro |
Brasil |
|
128 |
130 |
Manaus |
Brasil |
|
132 |
130 |
Kingston |
Jamaica |
|
135 |
137 |
Bogotá |
Colômbia |
|
135 |
140 |
La Paz |
Bolívia |
|
140 |
124 |
Caracas |
Venezuela |
|
147 |
146 |
Nairobi |
Quênia |
|
159 |
150 |
Moscou |
Rússia |
|
162 |
177 |
Nova Deli |
Índia |
|
213 |
211 |
Bagdá |
Iraque |
|
215 |
215 |
Brazzaville |
Congo |
Figura 1 – Tabela
Ao analisarmos os resultados obtidos nos países das Américas, observamos
que os Estados Unidos e Canadá apresentam avaliações mais altas do que as
principais cidades da América Latina.
|
Ranking Mundial |
Ranking das Américas |
Cidade |
País |
|
2 |
1 |
VANCOUVER |
Canada |
|
12 |
2 |
TORONTO |
Canada |
|
20 |
3 |
OTTAWA |
Canada |
|
20 |
3 |
SAN FRANCISCO |
Canada |
|
23 |
5 |
HONOLULU |
USA |
|
23 |
5 |
MONTREAL |
Canada |
|
26 |
7 |
CALGARY |
Canada |
|
36 |
8 |
SEATTLE |
USA |
|
39 |
9 |
PORTLAND |
USA |
|
39 |
9 |
BOSTON |
USA |
|
39 |
9 |
WINSTON
SALEM |
USA |
|
44 |
12 |
LEXINGTON |
USA |
|
47 |
13 |
PITTSBURGH |
USA |
|
47 |
13 |
CHICAGO |
USA |
|
50 |
15 |
WASHINGTON |
USA |
|
53 |
16 |
LOS ANGELES |
USA |
|
53 |
16 |
MINNEAPOLIS |
USA |
|
55 |
18 |
CLEVELAND |
USA |
|
55 |
18 |
HOUSTON |
USA |
|
55 |
20 |
ST. LOUIS |
USA |
|
63 |
21 |
MIAMI |
USA |
|
63 |
21 |
ATLANTA |
USA |
|
65 |
23 |
DETROIT |
USA |
|
71 |
24 |
SAN JUAN |
Puerto Rico |
|
75 |
25 |
BUENOS AIRES |
Argentina |
|
75 |
25 |
MONTEVIDEO |
Uruguay |
|
79 |
27 |
SANTIAGO |
Chile |
|
85 |
28 |
PANAMA CITY |
Panama |
|
103 |
29 |
BRASíLIA |
Brazil |
|
104 |
30 |
SAN JOSE |
Costa Rica |
|
107 |
31 |
SÃO PAULO |
Brazil |
|
108 |
32 |
RIO DE JANEIRO |
Brazil |
|
108 |
32 |
LIMA |
Peru |
|
110 |
34 |
QUITO |
Ecuador |
|
112 |
35 |
ASUNCION |
Paraguay |
|
128 |
36 |
MEXICO CITY |
Mexico |
|
135 |
37 |
LA PAZ |
Bolivia |
|
135 |
37 |
BOGOTÁ |
Colombia |
|
140 |
39 |
CARACAS |
Venezuela |
|
140 |
39 |
GUATEMALA CITY |
Guatemala |
|
170 |
41 |
MANAGUA |
Nicaragua |
|
173 |
42 |
SAN SALVADOR |
El Salvador |
|
189 |
43 |
HAVANA |
Cuba |
|
193 |
44 |
PORT-AU-PRINCE |
Haiti |
Figura 2 -
Tabela
Analisando
as principais cidades latino-americanas, observamos alguns pontos
positivos e negativos utilizados na análise:
ý
São Paulo:
Apresenta um índice alto de violência urbana e poluição. Em contrapartida
é um grande centro financeiro e comercial, além de apresentar uma grande
variedade de atividades culturais e de lazer.
ý
Buenos Aires:
A recente crise trouxe como conseqüência o desemprego que acaba por
influenciar no aumento da criminalidade.Conta com um bom sistema de
transporte público.
ý
Cidade do México:
Violência e muita poluição são os problemas mais agravantes. O sistema
metroviário se destaca pela qualidade e há uma grande variedade de
restaurantes que oferecem tanto a culinária local, como a internacional.
ý
Caracas:
Mais uma vez, a violência é destacada como um dos maiores problemas,
seguido pela polícia corrupta, no entanto, apresenta razoáveis serviços
médicos particulares e boas escolas internacionais.
ý
Bogotá:
A guerrilha é um dos piores problemas dessa cidade neste momento. Grupos
revolucionários como as FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia)
e o ELN (Exército de Libertação Nacional) estão constantemente em
confronto com o governo causando a insegurança e morte de muitos civis.
Apresenta bons serviços médicos e é reconhecida por ter bons especialistas
cardiovasculares e oftalmológicos.
Foi
identificado que a Europa tem cinco entre as seis cidades com melhores
índices de segurança pessoal no mundo, estes são baseados nos níveis de
criminalidade, imposição das leis e estabilidade interna. Luxemburgo é a
mais segura, com um índice de 133,5 (considerando Nova York como índice
100), seguida pela capital finlandesa Helsinki, e as cidades suíças de
Zurique, Genebra e Berna, com índices de 126,5. Cingapura divide a segunda
colocação.
As cidades
japonesas também apresentam bons índices, com nove delas dividindo a
sétima posição com índice de 122. “As melhores cidades em relação à
segurança pessoal apresentam altos índices de estabilidade interna,
imposição das leis e baixa criminalidade. São especialmente destacadas as
variações entre os índices dos países industrializados e os daqueles menos
desenvolvidos”.
A cidade com pior índice de segurança pessoal é Bangui, na República
centro-africana, com um índice de apenas 21,5. Desde o Golpe em 2001, o
ambiente na cidade continua altamente volátil e perigoso. Outras cidades
com baixo índice incluem Abidjan na Costa do Marfim e Luanda em Angola.
“Vai levar algum tempo até que várias destas cidades africanas se
recuperem de períodos tão prolongados de tensão política e econômica,
restabelecendo democracias estáveis onde a lei seja cumprida, e onde os
cidadãos locais e os expatriados possam se sentir seguros”, diz o
pesquisador Senior da Mercer em Genebra (Suiça) e responsável global pelo
estudo.
As cidades
da América do Sul tendem uma apresentar baixa colocação devido a problemas
na política local e na economia, além da baixa imposição das leis
testemunhada nos últimos meses. Santiago no Chile tem a melhor colocação,
com 93,5. Bogotá e Medelin na Colômbia apresentam as piores colocações com
índices 31 e 30. Ambas as cidades continuam a vivenciar sérias crises de
violência.
Este estudo da Mercer foi baseado em uma avaliação detalhada de 39
fatores-chave determinantes da qualidade de vida, agrupados nas seguintes
categorias:
ý
Ambiente político e social (estabilidade política, crime,
imposição das leis, etc.)
ý
Ambiente econômico (regras para câmbio de moedas, serviços
bancários, etc.)
ý
Ambiente sócio-cultural (censura, limitações na liberdade
pessoal, etc.)
ý
Considerações médicas e de saúde (serviços e materiais
médicos, doenças infecciosas, esgoto, remoção de lixo, poluição do ar,
etc.)
ý
Escolas e educação (nível e disponibilidade de escolas,
etc.)
ý
Serviços públicos e de transporte (eletricidade, água,
transporte público, congestionamentos, etc.)
ý
Recreação (restaurantes, teatros, cinemas, esportes, lazer,
etc.)
ý
Bens de consumo (disponibilidade de comida e ítens de
consumo, automóveis, etc.)
ý
Habitação (casas, eletrodomésticos, móveis, serviços de
manutenção, etc.)
ý
Ambiente natural (clima, histórico de desastres
naturais)
Apesar do
PIB “per capita” não ser um índice capaz de medir
precisamente a pobreza. Para medir o nível e a qualidade de vida não é
suficiente que se analise apenas os indicadores econômicos tradicionais,
do tipo PIB e PNB. Estes indicadores servem unicamente para detectar o
nível de atividade econômica e, até certo ponto, apreender a margem de
manobra de que dispõe um país em razão do seu potencial econômico.
Estes indicadores econômicos, ou à abordagem não podem medir a
satisfação psicológica, a felicidade ou a realização na vida. Além disso,
a avaliação de bens e serviços pelo mercado não está necessariamente
relacionada com seu conteúdo em termos de bem-estar, e as atividades
não-inseridas no mercado tendem a ser excluídas do exame. Considera-se
também que as medidas do PNB freqüentemente ocultam importantes efeitos da
distribuição através do uso de médias.
Os
indicadores sociais têm por objetivo medir as necessidades básicas, ou os
níveis mínimos de sobrevivência que os planos de desenvolvimento devem
procurar satisfazer. No momento em que tomou impulso esse “movimento”, no
início dos anos 70, estava colocado o planejamento como sendo o elemento
capaz de solucionar os grandes problemas sociais.
Assim, o “movimento de indicadores sociais”, principalmente nos países
ditos “em desenvolvimento”, tem estado vinculado às políticas públicas de
combate à pobreza, ou, mais genericamente, aos objetivos de melhorar a
qualidade de vida dos sólidos.
Medir (ou
definir) pobreza apresenta as mesmas dificuldades de operar com o conceito
de qualidade de vida. Nesse sentido, não existe um parâmetro “científico”
para determinar quem é pobre e quem não o é, ou, a que nível uma
necessidade específica está satisfeita ou não. Assim, os conceitos de
pobreza ou de necessidades básicas (que estão estreitamente ligadas ao
âmbito da qualidade de vida) têm um caráter “normativo”, isto é, são
conceitos explicita ou valorativamente orientados. Portanto, os
indicadores que objetivam medir a pobreza ou o grau de satisfação das
necessidades básicas apenas têm sentido quando inseridos num modelo de
referência - de política ou de desenvolvimento social - que explicite o
conteúdo de cada um deles. Trabalhar com indicadores traz problemas do
ponto de vista metodológico, do tipo: como expressar os indicadores
sociais. Estes modelos,
assim como a concepção dos indicadores sociais como um todo, devem ser
submetidos a uma advertência fundamental: os trabalhos realizados com
indicadores, longe de representar a verdade absoluta sobre os fenômenos
sócio-econômicos, fornecem principalmente indicações sobre as tendências
destes fenômenos, possível magnitude, grupos sociais mais afetados,
localização espacial, etc. Em outras palavras, os indicadores sociais
constituem-se exclusivamente como um instrumental possível - dentre outros
- para tornar a realidade mais palpável e controlável, objetivando com
isso elencar as condições plausíveis para a implementação das
transformações desejadas.
Feitas estas considerações conclui-se que o que se faz necessário,
portanto, é uma combinação de medidas objetivas com indicadores de
percepção, através de um arcabouço rigoroso e sistemático, a fim de que se
torne possível a articulação do conceito de qualidade de vida através dos
indicadores sociais.
Para medir o nível e a qualidade de vida o debate atual aponta uma
tendência praticamente unânime, que é a impossibilidade de se apoiar tal
medida sobre o indicador tradicional: o Produto Nacional Bruto (PNB), e
sua derivada, a renda “per capita” - conforme já explicitamos
anteriormente. Este indicador serve unicamente para detectar o nível de
atividade econômica e, até certo ponto, apreender a margem de manobra de
que dispõe um país em razão de seu potencial econômico. Mas a
descrição da situação social e ambiental e a formulação dos objetivos de
desenvolvimento exigem a aplicação de uma bateria de indicadores e de
verdadeiras contas da natureza.
Os indicadores sociais permitem, de um lado, estabelecer perfis de
bem-estar para cada grupo social e de outro definir os objetivos de
desenvolvimento, utilizando-se para cada indicador retido, uma norma de
satisfação julgada aceitável, como um mínimo social para um país e um
período determinado. Em contrapartida a pesquisa de indicadores agregados
de bem-estar, normalidade dos ciclos ecológicos de renovação dos recursos.
Todas as tendências da degradação ambiental descritas continuam sem
decrescer: florestas estão diminuindo, desertos estão se expandindo e
solos estão sendo erodidos. A destruição da camada de ozônio vem
aumentando. Os níveis de dióxido de carbono e de outros gases que
aprisionam calor na atmosfera continuam a se elevar de maneira constante.
Apesar dessa tendência, muitos indicadores econômicos - principalmente
aqueles que constituem o PNB - apresentaram um significativo avanço
durante a década de 80 (segundo dados do Worldwatch Institute -
instituição que publica o “State of the World” - nesse período a produção
econômica global expandiu-se em mais de um quinto).
Considerando esses dois aspectos os pesquisadores do Worldwatch Institute
propõem que se faça uma distinção entre o uso de recursos que sustentam o
progresso e o uso de recursos que minam a possibilidade de um progresso
que se mostre sustentável com o correr do tempo. Nesse sentido, por
exemplo, o PNB além de incluir a depreciação de máquinas e equipamentos,
deveria levar em conta a depreciação de capital natural - que inclui
recursos não renováveis como o petróleo e recursos renováveis como as
florestas.
Assim teríamos os contornos de uma sociedade sustentável. Não basta
implementar pouco a pouco uma série de ações políticas e, por isso,
oferece uma visão que poderia guiar reformas políticas. Uma
sociedade que satisfaça suas necessidades sem consumir a base de recursos
das gerações futuras seria eficiente em todos os sentidos; sua força
viria de fontes renováveis de energia e não de combustíveis fósseis,
contaria com práticas agrícolas menos danosas e usaria, para muitos
propósitos, materiais reciclados, etc.
A idéia de que o modelo econômico vigente precisa ser revisto sob o prisma
ecológico não é reivindicação apenas dos cientistas do I Mundo. Cada vez é
mais forte o enlace entre a economia a ecologia e a sociologia para a
elaboração de uma teoria do desenvolvimento sustentável.
No caso brasileiro a utilização dos indicadores ambientais ainda
encontra-se na fase de levantamento de dados, principalmente no que diz
respeito às condições regionais e estaduais, mas apresentaremos os
resultados de um relatório sobre qualidade de vida referente ao ano de
2000, que poderá nos dar uma base de como estamos inseridos no contexto
mundial.
O Brasil
é o 74º em qualidade de vida.
O IDH,
Índice de Desenvolvimento Humano, é um medidor das Nações Unidas, para
mensurar o estágio de desenvolvimento de países ou regiões de uma forma
bem mais ampla do qu a simples medição de riqueza ou produção. Seria, na
verdade, um indicador mais próximo da qualidade de vida das populações.
Segundo relatório de 199 do Programa das Nações Unidas para o
Desenvolvimento, o Brasil ocupa o 74º lugar entre os 174 países analisados
pela ONU quanto ao IDH. O índice mede a qualidade de vida dos
países, a partir de indicadores de educação (alfabetização e taxa de
matrícula), saúde (esperança de vida ao nascer) e renda (PIB per capita).
4.4
Educação – alfabetização e taxa de matrícula
Quanto maior o índice de escolarização da população, melhor o nível de
desenvolvimento, exercício da cidadania, produtividade no trabalho, etc.
4.5 Saúde – Expectativa de vida ao
nascer
Se a
população apresenta um expectativa de vida elevada, isto indica que as
condições de saneamento básico, alimentação, assistência médico-hospitalar
e moradia são boas, além de haver acesso a um meio ambiente saudável.
4.6
Renda – Produto Interno Bruto (PIB) per capita
O PIB é a
soma de tudo o que foi produzido pela economia de um país no período de
uma no. O PIB de um país dividido por sua população corresponde à renda
per capita, que é o valor que caberia, em média, a cada pessoa.
Essas três variáveis são expressam em uma escala que varia de 0,0 a 1,0:
quanto mais baixo o índice piores são as condições de vida; quanto mais
próximo de 1,0, mais elevada é a qualidade de vida da população em geral.
Em comparação com os demais países, a classificação brasileira no que se
refere apenas ao indicadores educacionais melhorou.
O pior desempenho do Brasil é no índice que mede a saúde da sua população:
a expectativa de vida do brasileiro médio melhorou um pouco, oscilando de
66,6 anos (1995) para 66,8 (1997). Segundo o índice de pobreza humana,
15,8 % da população brasileira (26 milhões) não tem acesso as
condições mínimas de saude, educação e serviços básicos.
Mas a situação mais grave do Brasil é a concentração de renda: o PIB per
capita dos 20% mais ricos (US$18.563) é 32 vezes maior do que o dos 20%
mais pobres (US$578).
O coeficiente de Gini, que mede a desigualdade de renda, coloca o Brasil
com um dos piores países da América Latina, só igualado pelo Paraguai.
Isso porque
os 20% mais pobres ficam apenas com 2,5% da renda, enquanto os 20% mais
ricos detêm 63,4% da renda.
A renda cresceu mais rápido que o lado social: o PIB per capita do
Brasil aumentou 1,13% em média por ano, enquanto o IDH (qualidade de vida)
subiu à taxa de 0,61%. O Brasil passou a calcular o IDH a nivel de
Muncipios, Estados e Regioes. Se não chegam a surpreender, os dados do
Brasil nos deixam ao mesmo tempo felizes e infelizes.
De um lado
vemos um crescimento fantástico do índice, especialmente na década de 70.
a media brasileira passou de 0,494 em 1970 para 0,734 em 1980, 0,814 em
1995 e 0,830 em 1996. De fato há uma melhoria constante, embora ainda
falte muito para chegarmos próximo ao padrão do Canadá (0,960), da França
(0,946) ou da Noruega (0,943), que estão no topo da lista.
Entretanto, as diferenças entre Estados e regiões brasileiras são muito
nítidas. Enquanto o Rio Grande do Sul, Brasília e São Paulo alcançaram a
marca de 0,868 ou 0,869, próximas do primeiro mundo, Paraíba,
Maranhão, Alagoa e Piauí ficam abaixo de 0,560, ou seja, ainda abaixo da
média nacional em 1980.
As regiões sul e sudeste como um todo tem altos índices enquanto os
estados do nordeste ficam na parte de baixo da relação. Sergipe, Rio
Grande do Norte e Bahia são os melhores colocados da região nordeste.
Nos dados por municípios descobre-se que as cidades de Feliz, no Rio
Grande do Sul, a melhor, e São José da Tapera, em Alagoas, a pior, fazem
por onde merecer os respectivos nomes. Entre as 50 melhores cidades
brasileira não há nenhuma no nordeste. Quase todas estão no Rio Grande do
Sul, em Santa Catarina ou São Paulo. As 50 piores são todas
nordestinas, sendo que mais da metade estão em Alagoas (18) e Paraíba (9).
Apresentamos
agora uma breve síntese do ambiente na Europa, com dados fornecidos pela
União Européia. Mostrando como com vontade política é possível reverter a
atual situação em busca de uma melhor condição ambientaal que é
imprescindível a uma melhor qualidade de vida.
4.7 Concentração de
substâncias que destroem o ozônio estratosférico 1950-2100

Figura 3 – gráfico
Fonte: RIVM, dados preliminares da avaliação do ozono em
1998 da OMM.
Nota: A
curva mostra estimativas de mistura (freqüência de ocorrência) dos
chamados equivalentes de cloro eficaz. A projeção é baseada na avaliação
do ozônio da OMM/UNEP (1998), e baseia-se nas emissões máximas permitidas
no âmbito dos protocolos existentes.
O Quadro 4
apresenta um resumo da avaliação global dos progressos realizados nos
últimos cinco anos relativamente a cada um dos doze principais problemas
ambientais europeus identificados na Avaliação de Dobris e
analisados no presente relatório.
Nele faz-se
a distinção entre os progressos realizados na formulação das políticas e
os progressos na melhoria da qualidade do ambiente – que ocorrem
geralmente com um atraso relativamente ao desenvolvimento das políticas. A
base de informação utilizada nesta avaliação é mais fiável para umas áreas
do que para outras, revelando-se especialmente débil no que diz respeito
aos produtos químicos, à biodiversidade e ao ambiente urbano. Deste modo,
por exemplo, o "sinal neutro" (+/-) para os progressos nas políticas
relativas ao ozônio troposférico assenta em bases e conhecimentos mais
sólidos do que o mesmo sinal aposto aos produtos químicos, domínio em que
as mudanças na percepção dos problemas subjacentes e uma grave carência de
dados dificultaram a avaliação.
4.8
Quadro 4 - Síntese das conclusões da Segunda Avaliação
|
12 Problemas
Ambientais Analisados |
PROGRESSOS
medidas políticas |
PROGRESSOS
estado do ambiente
|
|
Alterações
climáticas |
+/- |
- |
|
Destruição do ozônio
estratosférico |
+ |
- |
|
Acidificação
|
+ |
+/- |
|
Ozônio troposférico |
+/- |
- |
|
Produtos químicos |
+/- |
+/- |
|
Resíduos |
- |
- |
|
Biodiversidade |
+/- |
- |
|
Águas interiores
|
+/- |
+/- |
|
Ambiente marinho e
costeiro |
+/- |
- |
|
Degradação do solo |
- |
- |
|
Ambiente urbano
|
+/- |
+/- |
|
Riscos tecnológicos
e naturais |
+ |
+ |
|
Legenda:: |
|
|
+ |
evolução positiva
relativamente ao desenvolvimento de políticas ou ao estado do
ambiente . |
|
+/- |
alguma evolução nas
políticas, mas ainda insuficiente para a plena abordagem do problema
(nomeadamente uma cobertura geográfica insuficiente). Pouca ou
nenhuma alteração no estado do ambiente. Indica também
desenvolvimentos com elevado grau de incerteza ou variáveis nas
diversas áreas. |
|
- |
escasso
desenvolvimento de políticas ou evolução desfavorável do estado do
ambiente. Indica também a permanência de uma pressão elevada ou o
mau estado do ambiente. |
Figura 5 –
quadro
Embora se
tenha obtido alguma redução das emissões de gases que contribuem para o
efeito de estufa (as emissões de dióxido de carbono diminuíram 12% no
conjunto da Europa e 3% na Europa Ocidental, entre 1990 e 1995), grande
parte dessa redução resultou de mudanças econômicas, nomeadamente o
encerramento de grande parte da indústria pesada na Europa Oriental e a
substituição do carvão pelo gás natural na produção de eletricidade em
alguns países da Europa Ocidental.
O setor
Energia é o que mais contribui para as emissões de dióxido de carbono
(cerca de 35% em 1995), verificando-se níveis de emissão aproximadamente
iguais (cerca de 20%), nos sectores Indústria, Transportes e Doméstico +
Comércio, sendo a contribuição do sector dos transportes crescente.
Relativamente à UE, o último cenário traçado pela Comissão das Comunidades
Européias prevê, se nada for feito para contrariar as atuais tendências,
um aumento de 8% nas emissões de dióxido de carbono entre 1990 e 2010, em
flagrante contradição com o atual objetivo de 8% de redução (para um
conjunto de seis gases, incluindo o dióxido de carbono) na União Européia,
tal como foi acordado em Kyoto em Dezembro de 1997. Há claramente que
tomar medidas a todos os níveis, e em todos os sectores econômicos para
que o objetivo de Kyoto possa ser atingido.
4.10
Deterioração da camada de ozônio
A
concretização do Protocolo de Montreal reduziu em 80-90% a produção e a
emissão de substâncias destruidoras do ozônio, a nível mundial. Na Europa
foram alcançadas reduções semelhantes.
No entanto,
serão necessárias muitas décadas para que os níveis de ozônio na
estratosfera recuperem, em virtude da persistência das substâncias
destruidoras do ozônio nas camadas superiores da alta atmosfera. Este fato
acentua a importância de se reduzirem as emissões das restantes
substâncias que destroem o ozônio (HCFC, brometo de metilo) e de se
garantir uma aplicação adequada das medidas existentes, de modo a abreviar
a recuperação da camada de ozônio.
4.10
Acidificação
Desde a
Avaliação de Dobris realizaram-se alguns progressos no controlo da
acidificação, em virtude, principalmente, da redução constante das
emissões de dióxido de enxofre (50% entre 1980 e 1995 no conjunto da
Europa). As emissões de óxidos de azoto e de amoníaco diminuíram 15%.
Todavia, a deposição ácida continua a ser excessivamente elevada em cerca
de 10% do território europeu. No que se refere às emissões de NOx
provenientes do sector dos transportes, a política ambiental não conseguiu
acompanhar o crescimento da utilização dos transportes – o aumento no
número e na taxa de utilização dos automóveis está a anular os benefícios
decorrentes de melhorias técnicas tais como o uso acrescido de motores
menos poluentes e de catalisadores dos gases de escape nos automóveis de
passageiros. Esta circunstância transformou o sector Transportes na
principal fonte de emissões de óxidos de azoto.
Apesar do
crescimento dos níveis de tráfego no território europeu, obteve-se uma
redução significativa (14%) nas emissões de precursores do ozônio no
conjunto da Europa, entre 1990 e 1995, através da combinação de medidas de
controlo em diversos sectores e da reestruturação econômica da Europa
Oriental. Contudo, o smog de Verão, causado por concentrações
elevadas de ozônio na troposfera, continua a ocorrer freqüentemente em
muitos países europeus, constituindo uma ameaça para a saúde humana e para
a vegetação .
Serão
necessárias ainda reduções substanciais nas emissões de NOx e
de COV não-metânicos, em todo o hemisfério norte, para se alcançar uma
redução significativa das concentrações de ozônio troposférico. A segunda
fase do Protocolo de 1988 relativo aos NOx no âmbito da
Convenção da Comissão Econômica para a Europa das Nações Unidas sobre a
Poluição Atmosférica Transfronteiras a Longa Distância (CLRTAP) será um
protocolo multipoluentes e multi-efeitos visando à poluição fotoquímica, a
acidificação e a eutrofização. De acordo com as previsões, este protocolo
estará pronto para adoção em 1999 e estipulará reduções mais rigorosas das
emissões. As emissões, em rápido crescimento, originadas no sector
Transportes, o maior contribuinte para as emissões de NOx no
conjunto da Europa e para as emissões de COV não-metânicos na Europa
Ocidental, serão particularmente difíceis de controlar.
Na Europa
Oriental, a Indústria continua a ser a principal fonte de emissões
de COV não-metânicos, mas essa situação poderá mudar com o crescimento
previsto para os transportes.
4.11
Produtos químicos
A ameaça
que os produtos químicos representam para o ambiente e a saúde humana
continua rodeada de incertezas devido ao grande número de produtos
químicos de uso comum e à falta de conhecimento sobre a forma como esses
produtos circulam no ambiente e nele se acumulam, bem como sobre os seus
impactos.
Devido à
dificuldade de avaliar a toxicidade dos muitos produtos químicos (e suas
misturas) utilizados ou libertados, algumas das atuais estratégias de
controlo visam uma redução da "carga" de substâncias químicas no ambiente
(e, logo, da exposição a essas substâncias ) através da eliminação ou
diminuição da sua utilização e emissão. Novos instrumentos, tais como
programas de redução voluntária e os Inventários de Emissões Tóxicas
/Registros de Emissões Poluentes estão a suscitar uma atenção crescente.
4.12
Resíduos
Estima-se
que a produção total de resíduos tenha aumentado quase 10% entre 1990 e
1995. Contudo, parte desse aumento aparente poderá resultar de uma melhor
monitorização dos resíduos.
Na maioria
dos países, a gestão dos resíduos continua a ser dominada pela opção mais
barata: o aterro. A minimização e a prevenção da produção de resíduos são
cada vez mais reconhecidas como soluções mais desejáveis para a gestão dos
resíduos, mas ainda não é visível qualquer progresso global nesta direção.
A reciclagem tende a ter mais êxito nos países dotados de uma sólida
infra-estrutura de gestão dos resíduos.
Nos países
da Europa Central e Oriental e nos Novos Estados Independentes as
prioridades são a melhoria da gestão dos resíduos urbanos, através de
melhor triagem dos resíduos e melhor gestão dos aterros, a introdução de
iniciativas de reciclagem a nível local e a concretização de medidas pouco
onerosas de mitigação e confinamento em locais de deposição de resíduos
que exigem uma ação prioritária.
4.13
Ambiente urbano
A população
urbana continua a crescer na Europa e as cidades européias mostram sinais
de stress ambiental – má qualidade do ar, excesso de ruído,
congestionamento do tráfego, perda de zonas verdes e degradação dos
edifícios e monumentos históricos.
Embora se
tenham verificado algumas melhorias desde a Avaliação de Dobris
(por exemplo, na qualidade do ar urbano), muitas pressões, em especial por
parte dos transportes, estão a conduzir progressivamente à
deterioração da qualidade de vida e da saúde humana. Uma evolução positiva
foi o crescente interesse que as cidades têm manifestado pelo movimento da
Agenda 21 Local.
Mais de 290
cidades européias assnaram a Carta de Aalborg das Cidades Européias
Sustentáveis. A concretização das políticas e instrumentos das Agendas 21
Locais, com a sua promessa de melhorias significativas graças a uma ação
concertada a nível local, está rapidamente a tornar-se crucial para o
desenvolvimento em curso nas cidades.
4.14
Riscos tecnológicos e naturais
Além das pressões constantemente impostas pelas atividades
humanas quotidianas, o ambiente da Europa é afetado pelos efeitos
esporádicos de grandes acidentes tecnológicos ou de riscos naturais.
Os danos
causados por cheias e outros desastres com origem climatológica estão a
aumentar na Europa, possivelmente em resultado da intervenção humana, tais
como a alteração da paisagem (incluindo a impermeabilização do solo sob as
zonas urbanas e as infra-estruturas) e da maior freqüência de ocorrência
de situações meteorológicas extremas.
A avaliação
atrás descrita mostra que, embora algumas pressões sobre o ambiente tenham
sido reduzidas, esta redução não levou, de um modo geral, à melhoria do
estado do ambiente europeu. Isto deve-se, em alguns casos, ao ciclo longo
dos fenômenos naturais (é o caso de processos como a destruição da camada
de ozônio estratosférico ou a acumulação de concentrações elevadas de
fósforo nos lagos). Contudo, em muitos casos, as medidas tomadas foram
excessivamente limitadas para a escala e a complexidade do problema (como,
exemplo, o smog de Verão ou a existência de pesticidas nas águas
subterrâneas).
Tradicionalmente, as políticas ambientais européias concentraram-se, entre
outros aspectos, no controlo da poluição na fonte e na proteção de
determinados sectores do ambiente. Mais recentemente, a integração de
considerações ambientais noutras políticas e a promoção do desenvolvimento
sustentável passaram para primeiro plano.
De um modo
geral, atingir níveis sustentáveis de pressão sobre o ambiente e de
utilização dos recursos irá provavelmente exigir grandes progressos
tecnológicos e importantes mudanças no sentido de atividades que exijam um
menor consumo de recursos e sejam menos prejudiciais para o ambiente.
5. PRINCÍPIOS E EVOLUÇÃO
DO DIREITO AMBIENTAL NAS
CONSTITUIÇÕES BRASILEIRAS
TÍTULO II - DOS DIREITOS E GARANTIAS
FUNDAMENTAIS
CAPÍTULO I - DOS DIREITOS E DEVERES INDIVIDUAIS E COLETIVOS
Art. 5 -
Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer
natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no
País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à
segurança e à propriedade, nos termos seguintes:
LXXIII -
qualquer cidadão é parte legítima para propor ação popular
que vise a anular ato lesivo ao patrimônio público ou de entidade de que o
Estado participe, à moralidade administrativa, ao meio ambiente e ao
patrimônio histórico e cultural, ficando o autor, salvo comprovada má-fé,
isento de custas judiciais e do ônus da sucumbência.
TÍTULO III - DA ORGANIZAÇÃO DO ESTADO
CAPÍTULO II - DA UNIÃO
Art. 23
-
É competência comum da União, dos Estados do Distrito
Federal e dos Municípios:
VI -
proteger o meio ambiente e combater a poluição em qualquer
de suas formas;
VII - preservar as florestas, a fauna e a flora.
Art. 24
-
Compete à União, aos Estados e ao Distrito Federal legislar
concorrentemente sobre:
VI -
florestas, caça, pesca, fauna, conservação da natureza,
defesa do solo e dos recursos naturais, proteção do meio ambiente e
controle da poluição;
VIII -
responsabilidade por dano ao meio ambiente, ao consumidor,
a bens e direitos de valor artístico, estético, histórico, turístico e
paisagístico.
TÍTULO IV - DA ORGANIZAÇÃO DOS PODERES
CAPÍTULO IV - DAS FUNÇÕES ESSENCIAIS DA JUSTIÇA
Seção I - Do Ministério Público
Art. 129
-
São funções institucionais do Ministério Público:
III -
promover o inquérito civil e a ação civil pública, para a
proteção do patrimônio público e social, do meio ambiente e de outros
interesses difusos e coletivos.
TÍTULO VII - DA ORDEM ECONÔMICA E FINANCEIRA
CAPÍTULO I - DOS PRINCÍPIOS GERAIS DA ATIVIDADE ECONÔMICA
Art. 170
-
A ordem econômica, fundada na valorização do trabalho
humano e na livre iniciativa, tem por fim assegurar a todos existência
digna, conforme os ditames da justiça social, observados os seguintes
princípios:
VI -
defesa do meio ambiente.
TÍTULO VII - DA ORDEM ECONÔMICA E FINANCEIRA
CAPÍTULO I - DOS PRINCÍPIOS GERAIS DA ATIVIDADE ECONÔMICA
Art. 174
-
Como agente normativo e regulador da atividade econômica, o
Estado exercerá, na forma da lei, as funções de fiscalização, incentivo e
planejamento, sendo este determinante para o setor público e indicativo
para o setor privado.
§ 3o -
O Estado favorecerá a organização da atividade garimpeira
em cooperativas, levando em conta a proteção do meio ambiente e a promoção
econômico-social dos garimpeiros.
TÍTULO VIII - DA ORDEM SOCIAL
CAPÍTULO I - DISPOSIÇÕES GERAIS
Seção II - Da Saúde
Art. 200
-
Ao sistema único de saúde compete, além de outras
atribuições, nos termos da lei:
VIII
-colaborar na proteção do meio ambiente, nele compreendido o do trabalho.
TÍTULO VIII - DA ORDEM SOCIAL
CAPÍTULO III - DA EDUCAÇÃO DA CULTURA E DO DESPORTO
Seção II - Da Cultura
Art. 216
-
Constituem patrimônio cultural brasileiro os bens de
natureza material e imaterial, tombados individualmente ou em conjunto,
portadores de referência à identidade, à ação, à memória dos diferentes
grupos formadores da sociedade brasileira, nos quais se incluem:
V -
os conjuntos urbanos e sítios de valor histórico,
paisagístico, artístico, arqueológico, paleontológico, ecológico e
científico.
TÍTULO VIII - DA ORDEM SOCIAL
CAPÍTULO VI - DO MEIO AMBIENTE
Art. 225
-
Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente
equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de
vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e
preservá-lo para as presentes e futuras gerações.
§ 1o -
Para assegurar a efetividade desse direito, incumbe ao
Poder Público:
I -
preservar e restaurar os processos ecológicos essenciais e
prover o manejo ecológico das espécies e ecossistemas;
II -
preservar a diversidade e a integridade do patrimônio
genético do País e fiscalizar as entidades dedicadas à pesquisa e
manipulação de material genético;
III -
definir, em todas as unidades da Federação, espaços
territoriais e seus componentes a serem especialmente protegidos, sendo a
alteração e a supressão permitidas somente através de lei, vedada qualquer
utilização que comprometa a integridade dos atributos que justifiquem sua
proteção;
IV -
exigir, na forma da lei, para instalação de obra ou
atividade potencialmente causadora de significativa degradação do meio
ambiente, estudo prévio de impacto ambiental, a que se dará publicidade;
V -
controlar a produção, a comercialização e o emprego de
técnicas, métodos e substâncias que comportem risco para a vida, a
qualidade de vida e o meio ambiente;
VI -
promover a educação ambiental em todos os níveis de ensino
e a conscientização pública para a preservação do meio ambiente;
VII -
proteger a fauna e a flora, vedadas, na forma da lei, as práticas que
coloquem em risco sua função ecológica, provoquem a extinção de espécies
ou submetam os animais a crueldade.
§ 2o -
Aquele que explorar recursos minerais fica obrigado a
recuperar o meio ambiente degradado, de acordo com solução técnica exigida
pelo órgão público competente, na forma da lei. 3o - As condutas e
atividades consideradas lesivas ao meio ambiente sujeitarão os infratores,
pessoas físicas ou jurídicas, a sanções penais e administrativas,
independentemente da obrigação de reparar os danos causados.
4o -
A Floresta Amazônica brasileira, a Mata Atlântica, a Serra
do Mar, o Pantanal Mato-Grossense e a Zona Costeira são patrimônio
nacional, e sua utilização far-se-á, na forma da lei, dentro de condições
que assegurem a preservação do meio ambiente, inclusive quanto ao uso dos
recursos naturais.
§ 5o -
São indisponíveis as terras devolutas ou arrecadadas pelos
Estados, por ações discriminatórias, necessárias à proteção dos
ecossistemas naturais.
§ 6o -
As usinas que operem com reator nuclear deverão ter sua
localização definida em lei federal, sem o que não poderão ser instaladas.
O direito à vida constitui um direito fundamental do homem, conforme
previsto expressamente na cláusula pétrea do art. 5º, caput, da
Constituição Federal; a sadia qualidade de vida também está protegida pelo
art. 225, §1 167, inc. V.
Donde concluímos que, para que haja uma verdadeira qualidade de vida e
sejam observados o respeito, a ela inerentes, os termos constitucionais
devem ser analisados em toda sua amplitude, faremos a seguir, um breve
relato sobre este tema.
O meio ambiente pertence a uma daquelas categorias cujo conteúdo é mais
facilmente intuído do que definível, como conseqüência da riqueza da
complexidade do que encerra. Daí a dificuldade para sua adequada
classificação jurídica, e, por via de conseqüência, da identificação
natureza jurídica do próprio Direito Ambiental.
José Afonso
da Silva, por exemplo, recusa a catalogação do patrimônio ambiental como
integrante de qualquer das categorias tradicionais de bens, públicos ou
privados. Prefere enxergá-lo naquela outra categoria que a doutrina vem
chamando de bens de interesse público, na qual se inserem tanto bens
pertencentes a entidades públicas como bens dos sujeitos privados
subordinados a uma particular disciplina para a consecução de um fim
público. Vale transcrito, a respeito, elucidativa e expressiva passagem do
Professor, in verbis: “A Constituição, no art. 225, declara que
todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado. Veja-se que
o objeto do direito de todos não é o meio ambiente em si, não é qualquer
meio ambiente. O que é objeto do Direito é o meio ambiente qualificado. O
direito que todos temos é à qualidade satisfatória, o equilíbrio ecológico
do meio ambiente . Essa qualidade é que se converteu em um bem jurídico. A
isso é que a Constituição define como bem de uso comum do povo e essencial
à sadia qualidade de vida".
5.1
Princípios Fundamentais do Meio Ambiente
O Direito,
como ciência social e humana, pauta-se também pelos postulados da
Filosofia das Ciências, entre os quais está a necessidade de princípios
constitutivos para que a ciência passa a ser considerada autônoma, ou
seja, suficientemente desenvolvida e adulta para existir por si e
situando-se num contexto científico dado.
Por isso,
no natural empenho de legitimar o Direito Ambiental, como ramo autônomo da
árvore da ciência jurídica, têm os estudiosos se debruçado na
identificação dos princípios ou mandamentos básicos que fundamentam o
desenvolvimento da doutrina e que dão consistência às suas concepções.
5.1.1 Princípio do ambiente
ecologicamente equilibrado como direito
fundamental da pessoa humana.
A par dos
direitos e deveres individuais e coletivos elencados no art. 5º, o
legislador constituinte, no caput do art. 225, um novo direito fundamental
da pessoa humana, direcionado ao desfrute de condições de vida adequada em
um ambiente saudável, ou, na dicção da lei, “ecologicamente equilibrado”.
O
reconhecimento do direito a um meio ambiente sadio configura-se, na
verdade, como extensão do direito à vida, quer sob o enfoque da própria
existência física e saúde dos seres humanos, quer quanto ao aspecto da
dignidade desta existência – a qualidade de vida – que faz com valha a
pena viver.
5.1.2 Princípio da Natureza Pública da
proteção ambiental
Este
princípio decorre da previsão legal que considera o meio ambiente como um
valor a ser necessariamente assegurado e protegido para uso de todos ou,
como queiram para a fruição humana coletiva.
Por
conseguinte, a partir desta constatação, a proteção ao meio ambiente não
pode ser mais considerada um luxo ou uma utopia, pois o reconhecimento
deste interesse geral permitirá um novo controle de legalidade e
estabelecerá instrumentos aptos a fazer respeitar o novo objetivo do
Estado. Existiria, assim, uma ordem pública ambiental, tendo por fonte
básica a lei, e segundo a qual o Estado asseguraria o equilíbrio
harmonioso entre o homem e seu ambiente.
De certa
maneira, mantém o princípio ora em exame estreita vinculação com o
princípio geral de Direito Público da primazia do interesse público e
também com o princípio do Direito Administrativo da indisponibilidade do
interesse público. É que o interesse na proteção do ambiente, por ser de
natureza pública, deve prevalecer sobre os direitos individuais privados,
de sorte que, sempre que houver dúvida sobre a ser norma aplicada a um
caso concreto, deve prevalecer aquela que privilegie os interesses da
sociedade - a dizer, in dubio pro ambiente. De igual sentir, a natureza
pública que qualifica o interesse na tutela do ambiente, bem de uso comum
do povo, torna-o também indisponível.
Não é dado,
assim, ao Poder Público – menos ainda aos particulares- transigir em
matéria ambiental, apelando para uma disponibilidade impossível.
5.1.3
Princípio
do controle poluidor pelo Poder Público
Resulta das
intervenções necessárias à manutenção, preservação e restauração dos
recursos ambientais com vistas à sua utilização racional e disponibilidade
permanente.
A ação dos
órgãos e entidades públicas se concretiza através do exercício do seu
poder de policiamento administrativo, utilizando-se da faculdade inerente
à administração pública para limitar o exercício dos direitos individuais,
visando o bem-estar coletivo. Mas não só das determinações de polícia se
alimenta o princípio, afinal, toda política ambiental tem características
pedagógicas, o sentido que é um trabalho mais educativo que repressivo.
No Brasil,
o princípio encontra respaldo em vários pontos da lei ordinária (v.g, art
5º, § 6º, da Lei 7.347/85) e na própria Constituição Federal que,
expressamente, diz ser incumbência do Poder Público “controlar a produção,
a comercialização e o emprego de técnicas, métodos e substâncias que
comportem risco para a vida, a qualidade de vida e o meio ambiente” (Art.
225, §V).
5.1.4
Princípio da consideração da variável ambiental no processo decisório
de políticas de desenvolvimento.
Este
princípio diz com elementar obrigação de se levar em conta a variável
ambiental em qualquer ação ou decisão –pública ou privada – que possa
causar algum impacto negativo sobre o meio . A consagração deste princípio
se deu com o surgimento, no final dos anos 60, nos EUA, do Estudo do
Impacto Ambiental, mecanismo através do qual se procura prevenir a
poluição e outras agressões à natureza, avaliando-se, antecipadamente, os
efeitos da ação do homem sobre seu meio. Entre nós a matéria tem status
constitucional, sendo, também, regulamentada pela legislação
infraconstitucional.
5.1.5
Princípio da participação comunitária
O princípio
da participação comunitária, que não é exclusivo do Direito Ambiental,
expressa a idéia de que para a resolução dos problemas do ambiente ser
dada especial ênfase à cooperação entre o Estado e a sociedade, através da
participação dos diferentes grupos sociais na formação e na execução da
política ambiental. De fato, é fundamental o envolvimento do cidadão no
equacionamento e implementação da política ambiental, dado que o sucesso
desta supõe que todas as categorias da população e todas as forças
sociais, conscientes de suas responsabilidades contribuam à proteção e
melhoria do ambiente, que, afinal, é bem e direito de todos. Exemplo
concreto deste princípio são as audiências públicas em sede de estudo
prévio de imposto ambiental.
No Brasil,
o princípio vem contemplado no art. 225, caput, Constituição Federal,
quando ali se prescreve ao Poder Público e à coletividade o dever de
defender e preservar o meio ambiente para as presentes e futuras gerações.
5.1.6
Princípio
do Poluidor-pagador
Assenta-se
este princípio na vocação redistributiva do Direito Ambiental e se inspira
na teoria econômica de que os custos sociais externos que acompanham o
processo produtivo devem ser internalizados, vale dizer, que os agentes
econômicos devem levá-los em conta ao elaborados custos de produção e,
conseqüentemente, assumi-los. Esse princípio – escreve Prieur – visa a
imputar ao poluidor o custo social da poluição por ele gerada, engendrando
um mecanismo de responsabilidade por dano ecológico abrangente dos efeitos
da poluição não somente sobre bens e pessoas, mas sobre toda a natureza.
Em termos econômicos, é a internacionalização dos custos externos. Com a
aplicação do princípio poluidor-pagador , procura-se corrigir este curso
adicionado à sociedade, impondo-se sua internacionalização.
Entre nós,
a Lei da Política Nacional do Meio Ambiente, de 1981, acolheu o princípio
do poluidor-pagador , estabelecendo, como um desses fins , a imposição ,
ao poluidor e ao predador, da obrigação d recuperar e/ou indenizar os
danos causados. Em reforço a isso assentou a Constituição Federal “que as
condutas e atividades consideradas lesivas ao meio ambiente sujeitarão os
infratores, pessoas físicas ou jurídicas, a sanções penais e
administrativas, independentemente da obrigação de reparar danos
causados”.
5.1.7
Princípio
da Prevenção
O princípio
da prevenção é basilar em Direito Ambiental, concernindo à prioridade que
deve ser dada à medida que evitem o nascimento de atentados ao ambiente,
de modo a reduzir ou eliminar as causas de ações suscetíveis de alterar a
sua qualidade. Tendo o Direito Ambiental caráter fundamentalmente
preventivo, sua atenção está voltada para o momento anterior à consumação
do dano – o do mero risco. Ou seja, diante da pouca valia da simples
reparação, sempre incerta e, quando possível, excessivamente onerosa, a
prevenção é a melhor, quando não a única solução.
O estudo de
impacto ambiental, previsto no art. 225 , §1º,IV, CF, bem como a
preocupação do legislador em controlar a produção, a comercialização e o
emprego de técnicas, métodos e substâncias que comportem risco para a
vida, a qualidade de vida e o meio ambiente, manifestado no mesmo artigo ,
inciso IV, são exemplos típicos deste direcionamento preventivo.
Esse
princípio da precaução acabou inscrito expressamente na legislação pátria
através da “Conferência sobre Mudanças do Clima” , acordada pelo Brasil na
âmbito da Organização das Nações Unidas por ocasião da ECO 92, e
ratificada pelo Congresso Nacional , via Decreto Legislativo 1, de 3 de
fevereiro de 1994.
5.1.8
Princípio da Função Sócio-ambiental da propriedade
Concebida como direito fundamental, a propriedade não é, contudo, aquele
direito que se possa erigir à suprema condição de ilimitado e inatingível.
Daí o acerto do legislador em proclamar, de maneira veemente, que o uso da
propriedade será condicionado ao bem-estar social.
A função
social da propriedade urbana vem qualificada no art. 182, § 2º, da
Constituição, ou seja, é cumprida quando atende às exigências fundamentais
de ordenação da cidade expressas no Plano Diretor. A função social da
propriedade rural, de sua parte, encontra qualificação no art. 186 da
mesma Carta , que a tem por cumprida quando atende, entre outros
requisitos, à utilização adequada dos recursos naturais disponíveis e à
preservação do meio ambiente.
Destarte, o
uso da propriedade pode e deve ser judicialmente controlado,
impondo-se-lhes as restrições que forem necessárias para a salva guarda
dos bens maiores da coletividade, de modo a conjurar, por comandos prontos
e eficientes do Poder Judiciário, qualquer ameaça ou lesão à qualidade de
vida.
Com efeito,
não se pode falar, na espécie em qualquer direito adquirido na exploração
dessas áreas, pois, com a Constituição de 1988, só fica reconhecido o
direito de propriedade quando cumprida a função social ambiental, como seu
pressuposto e elemento integrante, pena de impedimento ao livre exercício
ou até de perda desse direito.
5.1.9
Princípio
do direito ao direito ao desenvolvimento sustentável
O
desenvolvimento sustentável é definido pela Comissão Mundial sobre Meio
Ambiente e Desenvolvimento como “aquele que atende às necessidades do
presente sem comprometer a possibilidade de as gerações futuras atenderem
a suas próprias necessidades”, podendo também ser empregado com o
significado de “melhorar e qualidade de vida humana, dentro dos limites da
capacidade de suporte dos ecossistemas”.
No
princípio do direito ao desenvolvimento sustentável, direito e dever estão
de tal forma imbricados um no outro que, mais do que termos relativos, são
termos recíprocos, mutuamente condicionantes. Daí a legitimidade, a força
e a oportunidade desse princípio como referência basilar do Direito do
Ambiente.
5.1.10
Princípio
da cooperação entre os povos
A
Constituição brasileira, em seu art.4º, IX, estabelece como princípio nas
suas relações internacionais a “cooperação entre os povos para o progresso
da humanidade”.
Ora, uma
das áreas de interdependência entre as nações é a relacionada à proteção
do ambiente, uma vez que as agressões a ele infligidas nem sempre se
circunscrevem aos limites territoriais de um único país, espraiando-se
também, não raramente, a outros vizinhos ou ao ambiente global do planeta.
O meio ambiente não conhece fronteiras, embora a gestão de recursos
naturais possa – e, às vezes, deva – ser objeto de tratados e acordos
bilaterais e multilaterais.
5.2
A questão
ambiental nas Constituições brasileiras
As
Constituições que precederam a de 1988 jamais se preocuparam com a
proteção do ambiente de forma específica e global. Nelas sequer uma vez
foi empregada a expressão meio ambiente , a revelar total inadvertência
ou, até, despreocupação com o próprio espaço em que vivemos.
A
Constituição do Império, de 1824, não fez qualquer referência à matéria,
apenas cuidando da proibição de indústrias contrárias à saúde do cidadão
(art. 179). Sem embargo a medida já trazia certo avanço para o contexto da
época.
A
Constituição Republicana, 1891, atribuía competência legislativa à União
para legislar sobre as minas e terras. (art. 34)
A
Constituição de 1934 dispensou proteção às belezas naturais, ao patrimônio
histórico, artístico e cultural (art 10, III e 148); conferiu à União
competência em matéria de riquezas do subsolo, mineração, águas,
florestas, caça, pesca e sua exploração. (art 5º)
A Carta de
1937 também se preocupou com a proteção dos monumentos históricos,
artísticos e naturais, bem como das paisagens e locais especialmente
dotados pela natureza (art. 134); incluiu entre as matérias de competência
da União legislar sobre minas , águas, florestas, caça, pesca e sua
exploração (art. 16); cuidou ainda da competência legislativa sobre o
subsolo, águas e florestas no art. 8, onde também tratou da proteção das
plantas e rebanhos contra moléstias e agentes nocivos.
A
Constituição de 1946, além de manter a defesa do patrimônio histórico,
cultural e paisagístico (art. 175), conservou como competência da União
legislar sobre normas gerais da defesa da saúde, das riquezas do subsolo,
das águas, das florestas, caça e pesca.
A
Constituição de 1967 conservou a necessidade de proteção do patrimônio
histórico, cultural e paisagístico (art. 172, parágrafo único);
conservando à União as mesmas atribuições anteriores.
A carta de
1969, emenda outorgada pela Junta Militar à Constituição de 1967, cuidou
também da defesa do patrimônio histórico, cultural e paisagístico(art.
180, parágrafo único). No tocante às competências, manteve as disposições
da Constituição emendada.
Do
confronto entre as várias Constituições brasileiras, é possível extrair
alguns traços comuns:
a) desde a
Constituição de 1934, todas mantiveram a proteção ao patrimônio histórico,
paisagístico e cultural do país.
b) houve
constante indicação no texto constitucional da função social da
propriedade, solução que não tinha em mira - ou era insuficiente para –
proteger efetivamente o patrimônio ambiental.
c) jamais
se preocupou o legislador constitucional em proteger o meio ambiente de
forma específica e global, mas sim dele cuidou de maneira diluída e mesmo
casual, referindo-se separadamente de alguns de seus elementos integrantes
(florestas, caça, pesca), ou disciplinando matérias com ele indiretamente
relacionadas (mortalidade infantil, saúde, propriedade).
5.2.1 A Constituição de 1988
A
Constituição de 1988 pode muito bem ser denominada “verde” , tal o
destaque que dá a proteção ao meio ambiente.
Na verdade,
a nova Constituição captou com indisputável oportunidade o que está na
alma nacional – a consciência de que é preciso aprender a conviver
harmoniosamente com a natureza - , traduzindo em vários dispositivos o que
pode ser considerado um dos sistemas mais abrangentes e atuais do mundo
sobre a tutela do meio ambiente. A dimensão conferida ao tema não se
resume, bem de ver, aos dispositivos concentrados especialmente no
Capítulo VI, no Título VIII, dirigido à Ordem Social, mas alcança também
inúmeros outros regramentos insertos ao longo do texto nos mais diversos
Títulos e Capítulos, decorrentes do conteúdo multidisciplinar da matéria.
A esse
texto, tido como o mais avançado do Planeta em matéria ambiental,
secundado pelas Cartas estaduais e Leis Orgânicas municipais, vieram
somar-se novos e copiosos diplomas legais oriundos de todos os níveis do
Poder Público e da hierarquia normativa, voltados à proteção do desfalcado
patrimônio natural do país.
5.3
Deveres específicos do Poder Público
O dever
estatal geral de defesa e preservação do meio ambiente é fragmentado em
deveres específicos, igualmente constitucionalizados. Em síntese são eles:
ý
Preservação e restauração dos processos ecológicos
essenciais (art. 225, §1º, I, 1ª parte)
Cuida-se,
aqui, de garantir, através de ações conjugadas de todas as esferas e
modalidades do Poder Público, o que se encontra em boas condições
originais e recuperar o que foi degradado.
ý
Promoção do manejo ecológico das espécies e ecossistemas
(art. 225, §1º, I, 2ª parte)
Aplicado ao substantivo manejo, o adjetivo ecológico conota o caráter
técnico-científico dos recursos naturais, sem embargo, ele deve ser tomado
em sua acepção mais ampla, ou seja, à luz do que se conhece por gestão
ambiental. Prover o manejo ecológico das espécies significa lidar com elas
de modo a conservá-las e, se possível recuperá-las.
ý
Preservação da biodiversidade e controle das entidades de
pesquisa e manipulação de material genético (art. 225, §1º,II)
Biodiversidade ou diversidade ecológica vem a ser a variedade de seres que
compõem a vida na Terra. Preservar a biodiversidade significa reconhecer,
inventariar, e manter o leque dessas diferenças. Quando a variedade de
espécies em um ecossistema muda , a sua capacidade em absorver a poluição,
manter a fertilidade do solo, purificar a água também é alterada.
ý
Definição de espaços territoriais protegidos (art. 225,
§1º, III)
Os espaços territoriais especialmente protegidos a que alude a
Constituição figuram hoje no rol dos Instrumentos da Política Nacional do
Meio Ambiente. Vale dizer, que este é um dos instrumentos jurídicos para
implementação do Direito Constitucional ao ambiente hígido e equilibrado.
O Poder
Público deve definir os espaços territoriais a serem protegidos, pode
fazê-lo por lei ou por decreto. Porém a alteração ou supressão desses
espaços só pode ser feita por lei, mesmo se criados delimitados por
decreto.
ý
Realização de estudo prévio de impacto ambiental (art.225,
§1º, IV).
O objetivo
central do Estudo de Impacto Ambiental é simples: evitar que um projeto
(obra ou atividade), justificável sob o prisma econômico ou em relação aos
interessas imediatos de seu proponente, revele-se posteriormente nefasto
ou catastrófico para o meio ambiente.
ý
Controle da produção, comercialização, e utilização de
técnicas, métodos e substâncias nocivas à vida, à qualidade de vida e ao
meio ambiente (art.225, §1º,V).
Decompondo
o objeto da ação controladora do Poder Público, definido pela nessa lei
maior, verificamos que não apenas as substâncias nocivas são proscritas
mas, ainda, técnicas e métodos danosos à qualidade de vida e meio
ambiente. Vale salientar que tecnologias e processos produtivos obsoletos
, inadequados ou impróprios, de qualquer forma atentatórios à saúde humana
e à ambiental não podem ser produzidos, comercializados ou utilizados.
ý
Educação Ambiental
A educação
ambiental sob o aspecto formal, refere-se ao ensino programado das
escolas, em todos os graus, seja no ensino privado, seja no oficial.
As melhores
concepções e teorias recomendam que faça parte de um currículo
interdisciplinar, ao invés de constituir uma disciplina isolada. É este o
sentir da Lei nº 9.795/99, que no seu art. 10, §3º , prescreve que “a
educação ambiental não deve ser implantada como disciplina específica no
currículo de ensino”.
4.8
Proteção à fauna e à flora (art. 225, §1º,VII)
A
Constituição da República de 1988, ao determinar em seu art. 225, §1º,
VII, ao Poder Público a incumbência de protegera fauna e a flora, submeteu
ao manto da lei todos os animais e vegetais.
6.
BIODIVERSIDADE
“Diversidade biológica"
significa a variabilidade de organismos vivos de todas as origens,
compreendendo, dentre outros, os ecossistemas terrestres, marinhos e
outros ecossistemas aquáticos e os complexos ecológicos de que fazem
parte; compreendendo ainda a diversidade dentro de espécies, entre
espécies e de ecossistemas. (Artigo 2 da Convenção sobre Diversidade
Biológica).
Mais
claramente falando, diversidade biológica, ou biodiversidade, refere-se à
variedade de vida no planeta terra, incluindo a variedade genética dentro
das populações e espécies, a variedade de espécies da flora, da fauna e de
microrganismos, a variedade de funções ecológicas desempenhadas pelos
organismos nos ecossistemas; e a variedade de comunidades, habitats e
ecossistemas formados pelos organismos. Biodiversidade refere-se tanto ao
número (riqueza) de diferentes categorias biológicas quanto à abundância
relativa (equitabilidade) dessas categorias; e incluem variabilidade ao
nível local (alfa diversidade), complementaridade biológica entre habitats
(beta diversidade) e variabilidade entre paisagens (gama diversidade).
Biodiversidade inclui, assim, a totalidade dos recursos vivos, ou
biológicos, e dos recursos genéticos, e seus componentes.
A
Biodiversidade é uma das propriedades fundamentais da natureza,
responsável pelo equilíbrio e estabilidade dos ecossistemas, e fonte de
imenso potencial de uso econômico. A biodiversidade é a base das
atividades agrícolas, pecuárias, pesqueiras e florestais e, também, a base
para a estratégica indústria da biotecnologia. As funções ecológicas
desempenhadas pela biodiversidade são ainda pouco compreendidas, muito
embora considere-se que ela seja responsável pelos processos naturais e
produtos fornecidos pelos ecossistemas e espécies que sustentam outras
formas de vida e modificam a biosfera, tornando-a apropriada e segura para
a vida. A diversidade biológica possui, além de seu valor intrínseco,
valor ecológico, genético, social, econômico, científico, educacional,
cultural, recreativo e estético. Com tamanha importância, é preciso evitar
a perda da biodiversidade.
Como é sabido o Brasil é considerado o país de maior diversidade de vida
do planeta, o que o torna alvo de cobiça e infindáveis discussões sobre a
forma de sua utilização econômica.
A
importância da biodiversidade foi compreendida há poucos anos, com o
desenvolvimento da biotecnologia, começando-se a observar que quanto mais
diversidade de vida possui um país mais e variados produtos poderia
desenvolver, principalmente em termos farmacológicos.
Pois bem,
biodiversidade é definida como a variabilidade de organismos vivos de
todas as origens, compreendendo, dentre outros os ecossistemas terrestres,
marinhos e outros aquáticos e os complexos ecológicos de que fazem parte;
compreendendo ainda a diversidade dentro de espécies, entre espécies e de
ecossistemas, conforme art.7º da Convenção sobre a Diversidade Biológica,
celebrada na Conferência sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, a Rio-92.
Portanto, a biodiversidade engloba todos os recursos vivos da terra e ante
a sua importância para o ser humano pode ser considerada como um conjunto
de riquezas, sendo um patrimônio natural de uma nação.
Com o
desenvolvimento da biotecnologia começou-se a observar a importância da
diversidade de vida para o desenvolvimento dos mais variados produtos,
principalmente os farmacológicos. A biodiversidade tomou notória
importância com os estudos do biólogo Edward O. Wilson (Diversidade de
vida. Editora Companhia das Letras.1994 e Biodiversidade. Ed.
Nova Fronteira.1997). Por sua vez, o descobrimento do potencial real de
nossa enorme biodiversidade, a grande extensão territorial brasileira, a
falta de recursos para fiscaliza-los, a escassez de recursos naturais no
restante do mundo, aliados à falta de conscientização de sua importância
científico-econômica estão facilitando a biopirataria que é o comércio
ilegal de nossa biodiversidade.
O
descobrimento do potencial real de nossa enorme biodiversidade, a grande
extensão territorial brasileira, a falta de recursos para fiscaliza-los, a
escassez de recursos naturais no restante do mundo, aliados à falta de
conscientização de sua importância científico-econômica estão facilitando
a biopirataria que é o comércio ilegal de nossa biodiversidade. Aliás, a
retirada de nossas riquezas naturais já vem desde o descobrimento, quando
então iniciou-se a evasão do nosso patrimônio.
O ser
humano sempre utilizou os recursos naturais em prol de seu desenvolvimento
e mesmo para sua subsistência, mas a explosão demográfica e o
desenvolvimento tecnológico havidos nas últimas décadas principalmente o
uso dos recursos biológicos aumentaram sensivelmente chegando a
comprometer muitos dos ecossistemas da terra, levando-os praticamente à
destruição, com conseqüências desastrosas para a humanidade.
Por sua vez
a crescente demanda por produtos químicos e fármacos aumentaram o
interesse sobre a biodiversidade existente nas áreas silvestres pouco ou
ainda não exploradas como no caso da Amazônia. A industria farmacêutica
recentemente retomou o entendimento de que a cura de milhares de
enfermidades humanas pode estar nos produtos extraídos dos recursos
naturais biológicos das florestas tropicais, o que está fazendo com que
suas atenções voltem então para o nosso país.
6.1
Bioprospecção: definição
Segundo
vários estatísticas e estudos amplamente publicados na imprensa em geral,
cerca de 25% dos medicamentos existentes foram elaborados com ingredientes
ativos extraídos de plantas, devendo ser registrada a relação de 119
substâncias químicas usadas regularmente na medicina em todo o mundo
referida por Farnsworth (1997), o que mostra a importância do uso da
variedade da flora. Na agricultura a biotecnologia tem se destacado cada
vez mais, conseguindo excelentes sucessos na reprodução tanto de plantas
quanto na melhoria de produção animal, com importantíssima colaboração de
genes de plantas e animais etc.
Dessa
forma, a matéria prima, no caso a diversidade de vida, passou a ter maior
valor de mercado e consequentemente mais atenção dos países detentores, o
que aliado a crescente consciência da valoração da biodiversidade fez com
que se buscassem regras para a sua exploração. Assim, surgiu em âmbito
planetária uma nova forma de exploração de produtos, a exploração dos
recursos naturais biológicos, ou seja a exploração da biodiversidade,
surgindo então a bioprospecção. Na Costa Rica, pequeno país da América
Central, desenvolve-se por exemplo um projeto piloto de bioprospecção em
convênio do Instituto Nacional de Biodiversidade (INBIO) com a Merck &
Co., Ltda, com interessantes resultados, conforme relatado por REID et all
(1993).
Assim,
bioprospecção pode ser definida como o método ou forma de localizar,
avaliar e explorar sistemática e legalmente a diversidade de vida
existente em determinado local, tem como objetivo principal a busca de
recursos genéticos e bioquímicos para fins comerciais.
6.2
Vantagens
A
utilização dos recursos naturais, principalmente os não renováveis, é
sempre danosa ao ambiente da terra, mas estamos cientes de que não há
outra alternativa a humanidade; temos que usar os recursos que se nos
apresentam, mas com as cautelas necessárias para que os danos sejam o
menor possível.
Apesar do
processo de bioprospecção ser relativamente novo, podemos desde já
destacar algumas de suas vantagens que seriam: propicia conhecimento da
biodiversidade e seu potencial; fornece substâncias importantes ao homem;
favorece o crescimento econômico; é um fator gerador de empregos;
proporciona fundo para a conservação; gera impostos; melhora o nível
científico do país e poderá melhorar o nível de vida no planeta com a
utilização correta dos recursos naturais.
6.3 Proteção jurídica da
biodiversidade e do processo de bioprospecção
A Convenção
sobre Diversidade Biológica teve a finalidade, entre outras, de chamar a
atenção dos países signatários e também do mundo em geral, sobre a
importância da biodiversidade, dos valores ecológicos, social, econômico,
científico, cultural, bem como reafirmou que os Estados são responsáveis
pela sua conservação para a obtenção de um desenvolvimento sustentável.
Considerou também que é de importância vital a conservação da
biodiversidade para atender as necessidades da população mundial. A
referida convenção foi aprovada no Brasil pelo Dec.Leg. nº 2, de 1994.
A nossa
Constituição Federal (1988), também protege a diversidade quando diz que
todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado(art.225), o
que se pode interpretar que todos têm direito a que nenhuma espécie pereça
ou se extinga.
Quanto a
preservação dos ecossistemas brasileiros e sua diversidade, o § 4º do
referido artigo protege a Floresta Amazônica, a Mata Atlântica, a Serra do
Mar, o Pantanal Mato-Grossense e a Zona Costeira, considerando-os
patrimônio nacional. Por sua vez, a Lei 6.938, de 31/08/81, (Política
Nacional do Meio Ambiente) tem como princípios a manutenção do equilíbrio
ecológico (art.2º,I) e a proteção dos ecossistemas (art.º, IV), mostrando
que a preservação da biodiversidade é essencial.
As leis de
preservação florestal (Lei 4.771/65, Cód. Florestal) e dos Crimes
Ambientais (Lei 9.605/98), bem como a criação das unidades de conservação
também protegem a diversidade, pois tentam manter os ecossistemas.
Quanto a
proteção da diversidade do patrimônio genético vemos que está expressa no
inciso II do referido art.225 constitucional, observando a existência da
Lei 8.974, de 5/01/95 (Lei da Biossegurança), que regulamenta os incisos
II e V do parágrafo 1º do citado artigo, estabelecendo normas de
segurança, fiscalização e comercialização etc. Há ainda a Lei nº 9.456, de
28/04/97 (Lei de Cultivares) que disciplina o direito de propriedade sobre
a multiplicação e produção de cultivares e sementes de vegetais.
Portanto, a
biodiversidade com os seus elementos e componentes integra assim o meio
ambiente, de forma que se constitui em um bem de uso comum do povo,
conforme o art.225 da Constituição Federal brasileira, devendo ser
protegida e fiscalizada por todos.
Dessa
maneira, a Lei 7.347/85 que disciplina a ação civil pública de
responsabilidade por danos causados ao meio ambiente, possibilita, entre
outros, sejam impedidos também atos degradatórios à biodiversidade. Por
esta lei está capacitado o Ministério Público e as demais pessoas
jurídicas elencadas em seu art.5º a defender o processo de bioprospecção,
uma vez que este trata de exploração de elementos da biodiversidade que
possuem caráter difuso, como visto.
6.4
Conhecimento tradicional
O
"conhecimento tradicional" constitui-se de práticas, conhecimentos
empíricos e costumes passados de pais para filhos e crenças das
comunidades tradicionais que vivem em contato direto com a natureza; ou
seja é o resultado de um processo cumulativo, informal e de longo tempo de
formação.
Constitui-se, assim, patrimônio comum do grupo social e tem caráter
difuso, pois não pertence a este ou aquele indivíduo mas toda a
comunidade, de maneira que toda a comunidade envolvida deve receber os
benefícios de sua exploração. Porém, não é dessa maneira que tem sido
explorada esta riqueza comunitária através da bioprospecção.
Muitos
destes recursos acabam sendo obtidos através da exploração justamente dos
conhecimentos tradicionais, os quais servem como indicadores de material
apropriado à pesquisa, encurtando a procura dos pesquisadores.
Todavia
este método ou processo deve observar princípios para que tenha
credibilidade científica, política e econômica, notadamente no que diz
respeito aos destinos dos benefícios auferidos, notadamente o princípio da
equidade distributiva, que é aquele pelo qual os benefícios devem ser
partilhados a todos os que participam, principalmente o país proprietário
da biodiversidade explorada, o princípio da participação pública o qual
garante a participação mais ampla possível da população envolvida em todos
os seus segmentos e o princípio da compensação pelo qual a comunidade
fornecedora da matéria prima ou do conhecimento deve receber compensações
em dinheiro ou em bens.
Ademais, a
Convenção sobre a Diversidade Biológica, aprovada pelo Decreto Legislativo
nº2,de 1994, traz em seu Preâmbulo, entre outras coisas, que as Partes
Contratantes devem reconhecer a estreita e tradicional dependência de
recursos biológicos de muitas comunidades locais e populações indígenas
com estilo de vida tradicionais, e que é desejável repartir
eqüitativamente os benefícios da utilização do conhecimento tradicional.
Ou seja, as comunidades locais (ribeirinhos, seringueiros etc) e as
populações indígenas que fornecerem seus "conhecimentos tradicionais"
relevantes para a conservação e exploração da biodiversidade devem receber
benefícios, os quais devem ser distribuídos eqüitativamente.
Isto nos
leva a concluir que como aderente da citada Convenção, o país que tiver
acesso a exploração dos elementos de nossa biodiversidade através da
utilização do "conhecimento tradicional" destas comunidades tradicionais e
dos povos indígenas, deve proceder a bioprospecção observando os
princípios supra elencados, em especial o princípio da repartição de
benefícios, o que deverá estar inclusive previsto em lei.
É
importante lembrar ainda que a Convenção sobre Diversidade Biológica
determina que os países contratantes criem mecanismos de proteção e acesso
aos recursos genéticos, o que está sendo tentado através de projetos que
estão no Congresso Nacional, que deverão dispor sobre o controle ao acesso
e esses recursos, importante para a proteção de nosso esplendido
patrimônio ambiental e em especial o "conhecimento tradicional" de nossos
indígenas e comunidades tradicionais.
6.5 Impactos sobre a biodiversidade
Tanto a
comunidade científica internacional quanto governos e entidades
não-governamentais ambientalistas vêm alertando para a perda da
diversidade biológica em todo o mundo, e, particularmente nas regiões
tropicais. A degradação biótica que está afetando o planeta encontra
raízes na condição humana contemporânea, agravada pelo crescimento
explosivo da população humana e pela distribuição desigual da riqueza. A
perda da diversidade biológica envolve aspectos sociais, econômicos,
culturais e científicos.
Em anos
recentes, a intervenção humana em hábitats que eram estáveis aumentou
significativamente, gerando perdas maiores de biodiversidade. Biomas estão
sendo ocupados, em diferentes escalas e velocidades. Áreas muito extensas
de vegetação nativa foram devastadas no Cerrado do Brasil Central, na
Caatinga e na Mata Atlântica. É necessário que sejam conhecidos os
estoques dos vários hábitats naturais e dos modificados existentes no
Brasil, de forma a desenvolver uma abordagem equilibrada entre conservação
e utilização sustentável da diversidade biológica, considerando o modo de
vida das populações locais.
Como
resultado das pressões da ocupação humana na zona costeira, a Mata
Atlântica, por exemplo, ficou reduzida a aproximadamente 10% de sua
vegetação original. Na periferia da cidade do Rio de Janeiro, por exemplo,
são encontradas áreas com mais de 500 espécies de plantas por hectare,
muitas dessas são árvores de grande porte, ainda não descritas pela
ciência.
Os
principais processos responsáveis pela perda da biodiversidade são:
1.
Perda e
fragmentação dos hábitats;
2.
Introdução
de espécies e doenças exóticas;
3.
Exploração
excessiva de espécies de plantas e animais;
4.
Uso de
híbridos e monoculturas na agroindústria e nos programas de
reflorestamento;
5.
Contaminação do solo, água, e atmosfera por poluentes; e
6.
Mudanças
Climáticas.
As
inter-relações das causas de perda de biodiversidade com a mudança do
clima e o funcionamento dos ecossistemas apenas agora começam a ser
vislumbradas.
Três razões
principais justificam a preocupação com a conservação da diversidade
biológica. Primeiro porque se acredita que a diversidade biológica seja
uma das propriedades fundamentais da natureza, responsável pelo equilíbrio
e estabilidade dos ecossistemas. Segundo porque se acredita que a
diversidade biológica representa um imenso potencial de uso econômico, em
especial pela biotecnologia. Terceiro porque se acredita que a diversidade
biológica esteja se deteriorando, inclusive com aumento da taxa de
extinção de espécies, devido ao impacto das atividades antrópicas.
O Princípio
da Precaução, aprovado na Declaração do Rio durante a Conferência das
Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento - CNUMAD (Rio-92),
estabelece que devemos agir já e de forma preventiva, ao invés de
continuar acomodados aguardando a confirmação das previsões para então
tomar medidas corretivas, em geral caras e ineficazes.
Brasil tem
uma área de 8,5 milhões km², ocupando quase a metade da América do Sul.
Essa área possui várias zonas climáticas que incluem o trópico úmido no
norte, o semi-árido no nordeste e áreas temperadas no sul. As diferenças
climáticas contribuem para as diferenças ecológicas formando zonas
biogeográficas distintas chamadas biomas. A maior floresta tropical úmida
(Floresta Amazônica) e a maior planínice inundável (o Pantanal) do mundo
se encontram nesses biomas, além do Cerrado (savanas e bosques), da
Caatinga (florestas semi-áridas) e da Mata Atlântica (floresta tropical
pluvial). O Brasil possui uma costa marinha de 3,5 milhões km² com uma
variedade de ecossistemas que incluem recifes de corais, dunas,
manguezais, lagoas, estuários e pântanos.
A variedade
de biomas reflete a riqueza da flora e fauna brasileiras, tornando-as as
mais diversas do mundo. Muitas das espécies brasileiras são exclusivas no
mundo (endêmicas). O Brasil é o país com a maior biodiversidade do mundo,
contando com um número estimado de mais de 20% do número total de espécies
do planeta. Diversas espécies de plantas de importância econômica mundial
são originárias do Brasil, destacando-se dentre elas o abacaxi, o
amendoim, a castanha do Brasil (também conhecida como castanha do Pará), a
mandioca, o caju e a carnaúba.
O Brasil
abriga o maior número de primatas com 55 espécies, o que corresponde a 24%
do total mundial; de anfíbios com 516 espécies; e de animais vertebrados
com 3.010 espécies de vertebrados vulneráveis, ou em perigo de extinção. O
país conta também com a mais diversa flora do mundo, número superior a 55
mil espécies descritas, o que corresponde a 22% do total mundial. Possui
por exemplo, a maior riqueza de espécies de palmeiras (390 espécies) e de
orquídeas (2.300 espécies). Possui também 3.000 espécies de peixes de água
doce totalizando três vezes mais que qualquer outro país do mundo.
O Brasil é
agraciado não só com a maior riqueza de espécies mas, também, com a mais
alta taxa de endemismo. Uma em cada onze espécies de mamíferos existentes
no mundo é encontrada no Brasil (522 espécies), juntamente com uma em cada
seis espécies de aves (1.622), uma em cada quinze espécies de répteis
(468), e uma em cada oito espécies de anfíbios (516). Muitas dessas são
exclusivas para o Brasil, com 68 espécies endêmicas de mamíferos, 191
espécies endêmicas de aves, 172 espécies endêmicas de répteis e 294
espécies endêmicas de anfíbios. Esta riqueza de espécies corresponde a,
pelo menos, 10% dos anfíbios e mamíferos e 17% das aves descritas em todo
o planeta.
A
composição total da biodiversidade brasileira não é conhecida e talvez
nunca venha a ser, tal a sua magnitude e complexidade. Sabendo-se,
entretanto, que para a maioria dos seres vivos o número de espécies no
território nacional, na plataforma continental e nas águas jurisdicionais
brasileiras é elevado, é fácil inferir que o número de espécies, tanto
terrestres quanto marinhas, ainda não identificadas, pode alcançar valores
da ordem de dezena de milhões no Brasil.
Apesar da
riqueza de espécies nativas, a maior parte de nossas atividades econômicas
está baseada em espécies exóticas. Nossa agricultura está baseada na
cana-de-açúcar proveniente da Nova Guiné, no café da Etiópia, no arroz das
Filipinas, na soja e na laranja da China, no cacau do México e no trigo da
Ásia Menor. A silvicultura nacional depende de eucaliptos da Austrália e
de pinheiros da América Central. A pecuária depende de bovinos da Índia,
de eqüinos da Ásia Central e de capins Africanos. A piscicultura depende
de carpas da China e de tilápias da África Oriental, e a apicultura está
baseada em variedades da abelha-europa provenientes da Europa e da África
Tropical.
É
fundamental que o país intensifique a implementação de programas de
pesquisa na busca de um melhor aproveitamento da biodiversidade brasileira
e continue a ter acesso aos recursos genéticos exóticos, também essenciais
para o melhoramento da agricultura, pecuária, silvicultura e piscicultura
nacionais.
Essa
necessidade está ligada à importância que a biodiversidade ostenta na
economia do país. Somente o setor da Agroindústria responde por cerca de
40% do PIB brasileiro , calculado em US$ 866 bilhões no ano de 1997), o
setor florestal por 4% do PIB e o setor pesqueiro por 1% do PIB. Produtos
da biodiversidade respondem por 31% das exportações brasileiras,
especialmente destacando café, soja e laranja. As atividades de
extrativismo florestal e pesqueiro empregam mais de três milhões de
pessoas. A biomassa vegetal, contando o álcool da cana-de-açúcar e a lenha
e o carvão derivados de florestas nativas e plantadas respondem por 30% da
matriz energética nacional e em determinadas regiões, como o Nordeste,
atendem a mais da metade da demanda energética industrial e residencial.
Grande parte da população brasileira utiliza-se de plantas medicinais na
solução de problemas corriqueiros de saúde. A diversidade biológica
constitui, portanto, uma das características de recursos ambientais,
fornecendo produtos para exploração e consumo e prestando serviços de uso
indireto. É importante, portanto, a disseminação da prática da valoração
da diversidade biológica. A redução da diversidade biológica compromete a
sustentabilidade do meio ambiente e a disponibilidade permanente dos
recursos ambientais.
Cálculos
sobre a biodiversidade global, conduzidos por E.O. Wilson, da Universidade
de Harvard, indicavam, em 1987, a existência de mais de 5 milhões de
espécies de organismos. Entretanto, coletas intensivas conduzidas à época,
principalmente na floresta tropical úmida, e com atenção concentrada nos
insetos, permitiram projetar valor da ordem de 30 milhões de espécies.
Novos trabalhos recentemente conduzidos estimaram que a biodiversidade do
planeta pode alcançar valores ainda muito mais elevados, sendo admitida
uma amplitude que vai de 10 a 100 milhões de espécies. A realidade dos
fatos, entretando, é que o número de espécies hoje conhecido em todo o
planeta está em torno de 1,7 milhões, valor que atesta o elevado grau de
desconhecimento da biodiversidade, mormente nas regiões tropicais.
Sem a
preservação da biodiversidade e um processo consciente e sustentável de
bioprospecção, não haverá garantia de sobrevivência da grande maioria das
espécies de animais e vegetais, ante a interdependência, e sem ela a
humanidade perderá fontes vitais de recursos para a sua sustentação, de
forma que devemos desenvolver métodos e ações concretas para a sua
preservação.
Em suma, a
humanidade percebendo as conseqüências danosas de suas ações e conhecendo
a importância da biodiversidade para o futuro da vida, começa uma
caminhada contra o tempo e exposições como o Hall da Biodiversidade do
Museu Americano de História Natural, que revelam o esplendor da
diversidade da Terra e como preservá-la, devem ser divulgadas e
principalmente visitadas para que possamos realmente refletir sobre o
nosso futuro e das demais formas de vida do nosso belo planeta azul, sem
sombra de dúvidas "a última Arca de Noé".
7. CONCLUSÃO
Ante o
exposto, podemos concluir que a biodiversidade representa um patrimônio
imensurável e que a bioprospecção como forma e processo de conhecimento e
exploração da vida no nosso planeta Terra é importantíssima e se
caracteriza como um dos acontecimentos sócio-científico-econômicos mais
evoluídos e essenciais dos últimos séculos. Além disso, poderá trazer
inúmeras vantagens como, por exemplo: propiciar o conhecimento da
biodiversidade e seu potencial; fornecer substâncias importantes ao homem;
favorecer o crescimento econômico; tornar-se um fator gerador de empregos;
proporcionar fundo para a conservação; gerar impostos; melhorar o nível
científico do país e também o nível de vida no planeta com a utilização
correta dos recursos naturais.
Portanto,
devemos nos esforçar para que esta nova forma de utilização dos bens
naturais percorra o caminho correto, sob pena de se tornar um caminho sem
volta com drásticas conseqüências para todos os seres vivos e
principalmente para o ser humano, o qual depende primordialmente da
diversidade de vidas para sobreviver.
Nos
caminhos do desenvolvimento sustentável preconizado principalmente após a
Conferência da ONU sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, a Rio-92, como a
mais evoluída forma de utilização dos recursos da terra para o
desenvolvimento humano, a bioprospecção passou a ser fundamental ante a
sua ampla esfera de atuação, como demonstrado.
Ademais,
não podemos esquecer que a biodiversidade é a causa e alicerça a
bioprospecção, não forma um recurso sem dono, ao contrário, pertence ao
país onde existe e é de uso comum do povo, sendo assim considerado como um
bem de caráter difuso, isto é, de cada um e conseqüentemente de todos, de
forma que deve ser defendido por todos, principalmente através da ação
civil pública.
Caso não
consigamos explorar nossos recursos naturais, quer renováveis ou não, de
forma sustentável, em breve estará exaurido todo o potencial utilizável da
Terra, o que comprometerá o futuro da vida.
Como
sabiamente escrito por Wilson (1994) "só será possível salvar a
diversidade biológica através de uma hábil mistura de ciência,
investimento de capital e política governamentais...”. Ao que
acrescentamos os aspectos jurídicos, como dito. Entretanto, para que isto
aconteça é primordial a participação de todos no processo de conhecimento
e exploração de nossa esplêndida biodiversidade.
A HORA É AGORA, SE DEIXARMOS PARA AMANHÃ PODE SER TARDE
DEMAIS.
8.
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www.brasil.gov.br
Nos
últimos anos, basicamente nas duas últimas gestões administrativas, o
poder local do município de Campinas tem se empenhado nesse objetivo.
Durante o período de 1990 até 1994, o slogan oficial do município
era
Campinas - Qualidade de Vida, reforçando a tese de um exemplo a
ser seguido por outros municípios.